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Sessão de DVDs – Uniformizando as vertentes distintas de Blade Runner

FILME: Blade Runner: O Caçador de Andróides – Edição Especial Tripla (Blade Runner – 25th Anniversary Edition) EUA, 1982/2007 – Ficção Científica – 448 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete”.

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Considerado um clássico da ficção científica cyberpunk, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” marcou época apesar das inevitáveis críticas recebidas durante seu lançamento em 1982. Carregado de filosofias e conceitos difíceis, o filme foi muito mal compreendido (aka menosprezado) pelo grande público, contudo, seu forte teor noir futurista, além do retrato extremamente realista do “amanhã” (antevendo alguns transtornos mundiais bem contemporâneos como a degradação ambiental/social), lhe garantiram a – fidedígna – admiração de inúmeros expectadores. Que gradativamente o elevaram a fenômeno Cult.

Dirigido por Ridley Scott, autor de “Aliens – O Oitavo Passageiro” (1979) e “Gladiador” (2000), a película se situa numa impressionante Los Angeles multicultural – de penumbra quase ininterrupta nas paisagens lúgrubes, evidentemente. Neste ambiente claustrofobico, apodrecido e chuvoso, encontramos os Blade Runners, unidades especiais licenciadas para caçar – “aposentando” – os Replicantes (andróides humanóides considerados ilegais pelas autoridades autocráticas). Virtualmente idênticas aos humanos, estas réplicas são dotadas, todavia, de um dispositivo de segurança que auxilia nesta tal “desativação”: uma vida útil de apenas quatro anos. Investigando o aparecimento de um grupo destes “robôs” foragidos, Harrison Ford (o eterno Indiana Jones) protagoniza o thriller interpretando Deckard, um matador que segue as convenções do gênero “detetivesco”. Inclusive, se envolvendo apaixonadamente com uma das “suspeitas” principais (vivida por Sean Young). Desenvolvendo um visionário cenário que mescla narrativas noir (de sombras/locais esfumaçados) e características fantásticas (com veículos voadores/autômatos avançados), Ridley quebra paradigmas cinematográficos numa obra-prima madura, dotada de temas importantes (superpopulação, miscigenação, globalização, mundialização…), tonificados por uma “visão” acachapante – literalmente falando – sobre o futuro das megalópoles.

Baseado no conto “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do papa (sci-fi) Philip K. Dick, “Blade Runner” estabeleceu novos parâmetros estilísticos, extrapolando um design cyber-gótico que influenciaria, posteriormente, filmografias inteiras – tipo “Matrix” (1999). Aspectos ressaltados pela trilha composta por Vangelis, de sofisticações que anteparam os notórios avanços visuais do produto, envolvendo amplo esmero/trabalho fotográfico e revigorados efeitos pirotécnico. Supervisionado pelo genial Douglas Trumbull (de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Star Trek – The Motion Picture”), toda a “magia” de “O Caçador de Andróides” advém do artesanato pré-CGI, onde a computação gráfica – apenas – engatinhava frente as particularidades das maquetes e modelos “reais”. Elementos que compensam a foto-semelhança das atuais ferramentas virtuais com um preciosismo/beleza arrebatadores.

Outro ponto bastante interessante é a complexa atuação de Rutger Hauer, um Replicante da classe Nexus 6 essencialmente tomado por uma transloucada jornada existencialista, englobando toques capazes de aterrorizá-lo e/ou simpatizá-lo aos olhos da platéia. Dependendo das múltiplas interpretações natas ao enredo multifacetado, subjetivo e (principalmente) remexido nas suas mais distintas versões – todas, alterando (leve ou bruscamente) o resultado final (história inclusa, lógico). Apesar de sempre estar apresentável, independente das “variantes editoriais” e suas (subseqüentes) predileções populares.

Versões

Em comemoração aos 25 anos de “Blade Runner”, Scott e Cia. decidiram restaurar a fita, aproveitando este revitalizante processo de acabamento digital para incrementar/mudar efeitos & passagens (antes incompletas). Preparando, conseqüentemente, uma “versão final” complementar a “do diretor” (1994). Assim, quatro “cortes” distintos compõem o DVD de aniversário: o original, a versão internacional e as duas “reconstruções” citadas acima. Do filme que estreou nos cinemas americanos em 82 para a contraparte que correu o mundo, as mudanças foram mínimas: somente quatro momentos foram alterados, todos eles, agregando tons violentos às respectivas seqüências onde foram inseridos (as mesmas que – antes – haviam sido “amenizadas” em solo estadunidense).

Já na versão “do diretor”, mexidas mais profundas foram efetuadas. As partes “violentas” foram novamente retiradas, assim como a narração em off de Ford (que explicava situações – por exigência dos produtores e a contragosto de Ridley), ripadas em adendo ao fatídico “sonho com o unicórnio”, peça que mudaria completamente o conjunto, que até perdeu seu “Happy End” (num encerramento “menos feliz”). Seguindo estas marcações, a “final cut” voltou a incorporar as (ex-cortadas) encenações “sangrentas” e introduzir inúmeras transformações cosméticas (consertando falhas incríveis de continuidade, por exemplo). Fotogramas novos também foram aproveitados, todavia, em menor proporção se comparamos com as transformações das “prévias” anteriores.

Extras

Saindo das quatro versões, todas contando com apresentações especiais do próprio diretor, o DVD triplo de “Blade Runner” ainda contêm três comentários de áudio (não legendados) e um gigantesco documentário sobre “O Caçador de Andróides”. Com mais de três horas e meia de duração, o material explora – separadamente em oito capítulos – todo o processo de realização do título. Um espetáculo imperdível pra quem gosta do assunto (e seus “bastidores”).

Presenteando os fãs com declarações importantes (entre 80 entrevistados), raras imagens estilo making off e vislumbres de trechos não aproveitados. Portanto, inéditos. Fartamente ilustrado por estes recortes, o diálogo entre os ouvidos vai se construindo sem melindre algum, até mesmo, tocando em questões delicadas, evidenciando brigas e problemáticas – que sabidamente marcaram as complicadas gravações deste lúdico ícone FC. Atualizado com informações profundas, detalhes de idéias não filmadas (mas amparados por ilustrações e storyboards de produção) e insights que revelam curiosidades deliciosas (vide o significado de certos Kanjis que brilham no horizonte de L.A. 2019). Resumindo: “Dias Perigosos” é um “especial” que só valoriza o pacote. Naturalmente, já imperdível. E absolutamente precioso em cada disco.

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Revivendo uma lenda do cinema

FILME: Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of Crystal Skull) EUA, 2008 – Aventura – 124 min. Matéria de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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18 de junho de 2007. Um dia especial para os saudosos fãs de Indiana Jones. A importante data marcou o início das filmagens principais da quarta aventura do herói-arqueólogo. Naquele momento, em pleno deserto (!) do Novo México, Spielberg ligava as câmeras e estourava garrafas de champanhe para brindar o retorno, após uma longa espera de 19 anos, da trupe criativa responsável pela trilogia original. Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford – o poderoso trio responsável pela marca – reuniram-se novamente para tocar o novíssimo capítulo “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”. “Acho que antes de começarmos não percebi a quantidade de pessoas desesperadas por outro filme da série. É uma sensação fantástica”, conta Cate Blanchett, a renomada atriz de “Elizabeth” – e agraciada pelo convidativo papel de “antagonista” neste imponente regresso de Indy.

Uma “volta” que surpreendeu muita gente – inclusive – espantando o próprio Spielberg, até então, crente que a saga havia realmente terminado no take final de “A Última Cruzada” (1989): “Filmei Indiana Jones cavalgando no pôr-do-sol porque achei que isso fechava as cortinas da cinesérie”, relembra. Mas foi o interprete do Dr. Jones que desfez esta impressão do chefe. “Harrison me ligou e disse: ‘Por que não fazemos outro filme desses? Há muitos fãs querendo’”, conta o diretor – que só passou a acreditar na “tentadora proposta” depois da insistência do amigo. “Ele estava obstinado. Ligou para George, que ficou pensando naquilo, e então me ligou e disse: ‘Bem, Steve, o que você quer fazer? Pode ser divertido criar outro filme’. Tive que dar o crédito a Harrison por dar partida a isso e a George por me fazer considerar a possibilidade de, pelo menos, mais uma história”, reconhece o consagrado filmmaker norte-americano.

Porém, antes de partirem para “campo”, o triunvirato fechou um inteligente acordo, só dariam “sinal verde” para o projeto quando cada um deles estivesse – plenamente – satisfeito com o roteiro. Que deveria – necessariamente – honrar os episódios passados. “Todas as tradições de Indiana Jones estão de volta”, proclama Steven. “Temos o mapa, o avião com a pequena linha vermelha mostrando como você está saltando de um lugar para outro do globo – isso é simplesmente parte da atmosfera que passamos muitos anos elaborando”, diz satisfeito. Para alívio dos cinéfilos puristas e amantes de “Caçadores da Arca Perdida”. Entretanto, algumas mudanças foram inseridas nesta passagem de tempo que separou seus criadores – e sua cria – dos longas antigos. “O estilo é o mesmo, o humor também. Tudo parece igual. Mas também pudemos construir em cima dele. As relações que temos no set e aquelas na tela estão mais fortes, melhores e mais divertidas do que nunca”, observa Lucas.

Agora nos anos 50, Indy encontra novos desafios, como a ameaça russa (encabeçada pela figura de Blanchett) e o clima de “perseguições ideológicas”. Isso, sem esconder a idade. “Ele certamente está mais velho, e talvez mais sábio”, brinca Ford, igualmente mais experiente. Mostrando que ainda não perdeu o jeito com o chicote e o chapéu. “Eu não usava o figurino de Indiana Jones havia 18 anos”, nos conta. “Bernie (a figurinista) mandou a roupa original para minha casa, para que eu a experimentasse, querendo ver onde teríamos que aumentar os tamanhos. Eu a coloquei e vestiu como uma luva. Me senti bem confiante e pronto para ir em frente!”, confessa, recriando “o mito” que ajudou a construir. “Pode ser que pessoas da minha idade nunca o tenham visto no cinema, mas Indiana Jones é algo grandioso para nós”, comemora Shia LaBeouf, que no papel de Matt divide as telas com seu ídolo, agindo como “elo” entre expectadores versados neste universo e os novatos no gênero. “É algo grandioso para todas as gerações”, sentencia o jovem ator de “Transformers”.

“Criamos Indiana Jones, mas ele pertence ao mundo. E agora somos os guardiões. Nossa função é exibir uma grande porção não apenas do que Indy significa para o público que cresceu com ele, como também apresentar o personagem àqueles que ainda não o conhecem”, detalha o ganhador do Oscar por “A Lista de Schindler”. Denotando o enorme cuidado para não descaracterizar o trabalho atual nem torná-lo obsoleto. “Conversamos constantemente sobre como devemos trazer de volta pequenas coisas dos títulos anteriores”, acrescenta Kathleen Kennedy, produtora-executiva deste “O Reino da Caveira de Cristal”.

“Um dos desafios que tivemos nesse filme foi ter que reproduzir muitas locações das três primeiras produções”, relembra Frank Marshall, veterano produtor destes longas. Portanto, acostumado às paisagens características da (já) rodada saga. A procura por ambientes condizentes acabou exigindo locais precisos e detalhados cenários em estúdio. Um passeio turístico que envolveu visitas à Universidade de Yale, hangares abandonados e uma densa selva localizada no sudeste Havaiano. “Eu andava por cada um e dizia: ‘Estou no set de um filme do Indiana Jones – como sou sortudo por dirigir outro desses!’”, alegra-se Spielberg – cuja “fama de perfeccionista” sempre fez render cada departamento técnico envolvido na elaboração de suas películas. Principalmente quando se trata das clássicas proezas de “Indiana”, curiosamente, nome emprestado do (então) cachorro de Lucas, o mesmo animal (de estimação) que inspirou George a imaginar o co-piloto alienígena Chewbacca em “Star Wars”. Ou seja, corrigindo, Indy foi criado (na verdade) por um autêntico “quarteto”.

Fonte: Paramount

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Renascendo do sítio arqueológico de Spielberg e Lucas

FILME: “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of Crystal Skull) EUA, 2008 – Aventura – 124 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação19 anos se passaram entre “A Última Cruzada” e este “O Reino da Caveira de Cristal” – na contagem, o quarto longa do arqueólogo-mor mais famoso das escavações cinematográficas. Quase duas décadas separam as duas pontas. O ontem e o agora. Apesar das (óbvias) rugas e fios brancos inexistentes na construção da trilogia original, o triunvirato, Spielberg, Lucas e Ford reuniu-se novamente para (surpreendentemente, até) registrar a proeza de um improvável lapso temporal. O lendário trio regressa retorcendo o tempo para nos mandar novamente para o universo mitológico desenvolvido por eles em “Caçadores da Arca Perdida” – isso, sem que notemos os anos transcorridos desde que o chicote e o chapéu característico surgiram pela primeira (ou seria última?) vez. Numa mágica real (cientificamente conhecida por “exercício estilístico”) que resgata da aposentadoria um dos mais queridos-simbólicos heróis da Sétima Arte.

Filmado como se estivéssemos na década de 80, “Indiana Jones” sustenta a idade avançada sem perder a força extraída de suas aventuras iniciais. Harrison Ford, no alto dos seus respeitabilíssimos 65 anos, reafirma o discurso daqueles que lhe imputam o título de “grande ator norte-americano”. Sem forçar nenhuma barra, esconder a data de nascimento ou pintar os cabelos, Indy demonstra estar em forma. Mantendo o mesmo carisma de sempre. Protagonizando as mesmas inconfundíveis peripécias de antigamente. Num elevado grau de vivacidade, suficientes para lamentarmos a (angustiante) longa espera para vê-lo novamente (em altíssimo nível) nas grandes telas.

Em parte, o sucesso da empreitada se deve a teimosia low-tech do diretor Steven Spielberg, entusiasta dos “tacanhos” mecanismos analógicos usados (principalmente) nos períodos pré-jurássicos da computação gráfica. Sem ceder totalmente ao mundo criado pelas CGs, o cineasta entrega um produto no mesmo patamar visual/técnico de suas três contrapartes oitentistas. Numa ousada homenagem – em tons nostálgicos – capaz de contentar os saudosistas/puristas fãs de Indiana. Inusitadamente, os piores momentos do presente capítulo aparecem (justamente) quando os efeitos especiais (digitais) assumem o lugar da pirotecnia artesanal. A cena “Tarzan” de Shia LaBeouf (fazendo o papel de “ponte” para os “novatos”) balançando-se entre cipós e seres virtuais é vergonhosa de tão maneta, destoando totalmente da proposta permanente (majoritariamente) no restante da película.

Isso não significa, contanto, um descaso às técnicas atuais. Usadas em bom número ao longo do próprio título. Apenas representa um desejo de ver o Dr. Jones protagonizando as mesmas perícias “humanas” já consagradas na história do cinema. Eternamente.

História que ganha novos acordes, se a saga do “pacato” professor sempre buscou inspiração nas matinês aventurescas da década de 30, agora, a inspiração advém dos “filmes B” produzidos nos anos 50. Um período (condizente, aliás, com a data onde o enredo deste “Indiana” se encaixa) marcado por conspirações, segredos e o surgimento de um novíssimo “inimigo”, os cruéis russos (capitaneados pela excelente atriz Cate Blanchett). Elementos aproveitados/necessários para encaixar a trama proposta por George Lucas, (também) teimosamente insistindo num argumento que dificilmente ganharia vida de outra forma (vide as indefinições que atravancaram – anualmente – o projeto, atrasando o desenvolvimento do filme enquanto não houvesse uma aprovação consensual quanto à idéia – envolvendo as tais misteriosas “Caveiras de Cristal” – lançada/bancada pelo bendito criador de “Star Wars”).

Referências clássicas (envolvendo sons, música e fotografia mimetizando adequadamente os episódios passados) finalizam um trabalho atemporal, capaz de brindar o expectador com uma incursão total no material bruto adorado por eles. Ok. As coisas não saíram (totalmente) perfeitas. O “mistério” que move o plot central não empolga como empolgava a busca pela Arca da Aliança (aparecendo de relance, bem no final do prólogo) – as informações “seguindo o tesouro perdido” quase sempre são confusas e contraditórias (alguns erros geográficos – apontados exaustivamente pela mídia – quase acabaram com a “veracidade” desta “fantasia”). Nem a ação mantém sua sabida qualidade numas (poucas) passagens desnecessárias. Mas tudo fica de lado quando sobe o tema imortal (EBA!!!) de John Williams. E Indy aparece para salvar o dia. Novamente. Ao seu melhor estilo. Bem “as antigas”. Né, Spielberg?

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