Arquivo da tag: Espelho

Sessão de Cinema – Espelhando alguns equívocos da completa falta de sutileza

FILME: Espelhos do Medo (Mirrors) EUA, 2008 – Terror – 110 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

Aterrissando aos montes em Hollywood, os remakes baseados em filmes orientais já se tornaram – praticamente – um subgênero dentro da “reciclada” cinematografia norte-americana. Sempre apostando em espíritos desgarrados (aka malévolos), estas obras inevitavelmente enfrentam um processo de completa descaracterização quando pisam em solo ocidental – território propício a sangrias fortes e explícitas – elementos secundários no oriente, onde as tramas se focam, sobretudo, na ambientação e no psicológico afetado de personagens/público.

Seguindo tal “defeito” congênito, “Espelhos do Medo” talvez seja a ninhada que tenha sofrido mais avalias nesta transposição entre vertentes narrativas tão diametralmente distintas. E cinematograficamente antagônicas. Adaptado do conto sul-coreano “Espelho” (lançado em 2003), a película trata o assunto (comumente encontrado nos co-irmãos “O Chamado” e “O Grito”) sem sutileza alguma, despejando seqüências violentas e entregando as surpresas da trama a cada anticlimático “efeito especial” fantasmagórico. Produzido e estrelado por Kiefer Sutherland, o protagonista do seriado “24 Horas”, a fita escorrega logo que escancara a “maldade” que freqüenta os tais espelhos que recheiam o produto, abarrotado por eles – a cada esquina ou cantinho fotografado pela câmera (mostrando-os até exageradamente, algo que beira a obsessão…).

Interpretando um ex-policial que tenta se virar como vigia noturno, Kiefer se convalece numa loja de conveniências abandonada – após um incêndio – descobrindo em suas jornadas noturnas os “Espelhos do Medo” sugeridos pelo título, que infernizam o sujeito lhe mostrando reflexos escabrosos, além de projetar alguns sons bem assustadores (em uníssono). Como se fosse uma “casa mal assombrada”, portanto. Contudo, o que a principio sugeriria uma grande contraposição entre a questionável veracidade de cada acontecimento e/ou uma possível peça pregada pela mente abalada da persona (ex-alcoólatra) de Sutherland (tentando se reerguer no novo emprego), termina sucumbindo bruscamente ao abraçar uma tramóia menos envolvente, onde logo fica nítido a origem sobrenatural destes fenômenos “inexplicáveis”. Que rapidamente desbocam numa alavancada final ao estilo “O Exorcista” (uma comparação penosa para qualquer filme do gênero – rivalizando-se com um “clássico”).

Assim, o diretor Alexandre Aja (autor de “Alta Tensão”) perde muito do interesse construído no início “climático”, banalizando os sustos prevendo-os antecipadamente nos momento onde a pirotecnia ganha destaque e os litros de sangue começam a jorrar – como se fossem os únicos itens aterrorizantes nas artimanhas cênicas utilizadas pela limitada produção. A cena da mandíbula destroçada, por exemplo, garante o arrepio daqueles que detestam imagens absurdamente violentas, doravante apostar numa direção não condizente com o contexto “agindo nas sombras” onde se insere. Longe de mexer com os brios do expectador rodado, a previsibilidade do teor fantasioso – que se apropria do conjunto original – prejudica o resultado final de maneira irreversível.

Transformando tudo numa mera exposição de “especilhos” encapetados, amparados por clichês efêmeros (pombas que se passam por assombrações barulhentas) e por uma quantidade dantesca de caretas patéticas (Kiefer principalmente), frutos da parca tensão sugestionada (justamente) nos instantes que deveriam “congelar a espinha”. Aprisionado por uma abordagem incapaz de dar total vazão ao “medo” desfilado pelos “espelhos” espalhados (sempre compulsoriamente) pela projeção, “Espelhos do Medo” empalidece diante das possibilidades abertas por um conceito tão interessante (o “mundo” refletido pelos vidros), deixando de aproveitar sua natureza “intimista” em prol do sangrento (e desgastado) festival fetichista – “americanizado” demais.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Críticas