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Sessão ESPECIAL de DVD’s – “Nós não estamos sozinhos”, diz Spielberg

FILME: Contatos Imediatos do Terceiro Grau – Edição Especial Tripla (Close Encounters of the Third Kind – 30th Anniversary Ultimate Edition) EUA, 1977/1980/2007 – Ficção Científica – 238 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Uma das peças primordiais na filmografia de Steven Spielberg, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) carrega alguns dos relatos cinematográficos mais inteligentes (aka interessantes) sobre o peculiaríssimo fenômeno UFO, mostrando-o numa faceta “realista” e distante das “vertentes” pouco pacíficas encontradas costumeiramente na belicosa ficção científica ao estilo “Guerra dos Mundos” (1953). Produzido após o arrasa-quarteirão “Tubarão” (1975), o longa se lambuja da importante mão mágica do criador de “E.T.” (1982), pontuando suas passagens com uma sensação maravilhosa de plena “fantasia adulta”.

Atraindo expectadores e o próprio personagem de Richard Dreyfuss para uma busca – compulsória – pelos tais objetos luminosos “não identificados” que cruzam os céus estadunidenses – até o acachapante “contato imediato” no sopé de uma montanha, quando assistimos (estupefatos) ao espetacular encontro de “terceiro grau” descrito pelo título. Spielberg esmiúça os tais OVNI’s, expondo muito das peculiaridades que marcam o tema, como as especulações científicas e os estranhos avistamentos. Sabiamente pontuando as ações através dos preceitos “fanáticos” de um homem comum (Dreyfuss), o recitado diretor vai construindo um crescente empolgante de descobertas (capitaneadas pela figura vivida pelo espetacular diretor/ator francês, François Truffaut), revelando inexplicáveis aparições repentinas de aeronaves e barcos antigos (dados como desaparecidos) nos pontos mais improváveis do globo. Sem contar as pessoas perseguindo – e sendo perseguidas – pelos diversos bólidos alienígenas.

Adendos que aumentam a emoção de uma trama alicerçada estritamente pelas elementares “5 notas famosas” criadas por John Williams (o emérito compósito da sexalogia “Star Wars”) ilustrando perfeitamente a comunicação musical (alegoricamente luminosa e multi-colorida) entre terráqueos/extraterrestres. Contando com este escore tão representativo e lindamente composto, a produção ornamenta o derivado final se esbaldando de efeitos especiais perfeitamente condizentes. Bem bolados pelo habilidoso Douglas Trumbull, eles adquirem uma importância fundamental nos momentos de potencializar o etéreo fascínio provocado pela impactante história, moldada na brilhante narrativa (apaixonadamente) pensada/escrita pessoalmente por Spielberg. Muito longe de parecer datado, “Contatos Imediatos” continua atualíssimo e condizente com as modernas discussões encontradas nas rodas ufológicas, mantendo sua integridade original intacta e re-valorizando algumas das seqüências “spielbergianas” mais lembradas pelos admiradores deste cultuado cineasta. Vide takes elementares como “a criança encoberta pela luz após abrir a porta” e/ou a (gigantesca) nave-mãe se aproximando da área de pouso.

Plenamente capaz de continuar mexendo com nosso imaginário coletivo, o longa na verdade evoluiu bastante através dos anos, ganhado até uma releitura diferente em 1980 (chamada de “Edição Especial”), quando Steven conseguiu finalizar várias das idéias inacabadas (ou sequer tocadas), sobretudo, pela urgência de antecipar o lançamento do filme, anteriormente previsto para 1978. Concertando o ritmo e agregando complementos importantíssimos pro sucesso atemporal da empreitada, esta “reedição” ficou marcada pela inclusão da (polêmica) encenação onde Richard vislumbra o interior da espaçonave alien. Todavia, recentemente Spielberg pôde refinar tal material, reparando e aparando arestas numa “versão do diretor” que suplanta as duas encarnações anteriores – reunindo o que ambas tinham de melhor. Excluindo o final citado acima e resgatando muito do fascínio nato pelo “desconhecido”. Insinuado, contudo, nunca estragando o clima de “mistério” anteriormente tão apregoado pela obra. Reconstituindo, assim, uma característica primordial – e indistinta – de “Contatos Imediatos” na sua forma “definitivamente definitiva”.

Extras

O DVD triplo de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” apresenta as três versões do clássico, acompanhadas de um ótimo documentário dividido tipo trilogia, além de materiais complementares, como trailers, vídeo-propaganda da época e uma inédita entrevista com o autor Steven Spielberg – falando dos 30 anos desta película-mestra, evento devidamente comemorado pelo pacote remasterizado. Virtualmente obrigatório para os colecionadores assíduos.

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Sessão de DVDs – Uniformizando as vertentes distintas de Blade Runner

FILME: Blade Runner: O Caçador de Andróides – Edição Especial Tripla (Blade Runner – 25th Anniversary Edition) EUA, 1982/2007 – Ficção Científica – 448 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete”.

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Considerado um clássico da ficção científica cyberpunk, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” marcou época apesar das inevitáveis críticas recebidas durante seu lançamento em 1982. Carregado de filosofias e conceitos difíceis, o filme foi muito mal compreendido (aka menosprezado) pelo grande público, contudo, seu forte teor noir futurista, além do retrato extremamente realista do “amanhã” (antevendo alguns transtornos mundiais bem contemporâneos como a degradação ambiental/social), lhe garantiram a – fidedígna – admiração de inúmeros expectadores. Que gradativamente o elevaram a fenômeno Cult.

Dirigido por Ridley Scott, autor de “Aliens – O Oitavo Passageiro” (1979) e “Gladiador” (2000), a película se situa numa impressionante Los Angeles multicultural – de penumbra quase ininterrupta nas paisagens lúgrubes, evidentemente. Neste ambiente claustrofobico, apodrecido e chuvoso, encontramos os Blade Runners, unidades especiais licenciadas para caçar – “aposentando” – os Replicantes (andróides humanóides considerados ilegais pelas autoridades autocráticas). Virtualmente idênticas aos humanos, estas réplicas são dotadas, todavia, de um dispositivo de segurança que auxilia nesta tal “desativação”: uma vida útil de apenas quatro anos. Investigando o aparecimento de um grupo destes “robôs” foragidos, Harrison Ford (o eterno Indiana Jones) protagoniza o thriller interpretando Deckard, um matador que segue as convenções do gênero “detetivesco”. Inclusive, se envolvendo apaixonadamente com uma das “suspeitas” principais (vivida por Sean Young). Desenvolvendo um visionário cenário que mescla narrativas noir (de sombras/locais esfumaçados) e características fantásticas (com veículos voadores/autômatos avançados), Ridley quebra paradigmas cinematográficos numa obra-prima madura, dotada de temas importantes (superpopulação, miscigenação, globalização, mundialização…), tonificados por uma “visão” acachapante – literalmente falando – sobre o futuro das megalópoles.

Baseado no conto “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do papa (sci-fi) Philip K. Dick, “Blade Runner” estabeleceu novos parâmetros estilísticos, extrapolando um design cyber-gótico que influenciaria, posteriormente, filmografias inteiras – tipo “Matrix” (1999). Aspectos ressaltados pela trilha composta por Vangelis, de sofisticações que anteparam os notórios avanços visuais do produto, envolvendo amplo esmero/trabalho fotográfico e revigorados efeitos pirotécnico. Supervisionado pelo genial Douglas Trumbull (de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Star Trek – The Motion Picture”), toda a “magia” de “O Caçador de Andróides” advém do artesanato pré-CGI, onde a computação gráfica – apenas – engatinhava frente as particularidades das maquetes e modelos “reais”. Elementos que compensam a foto-semelhança das atuais ferramentas virtuais com um preciosismo/beleza arrebatadores.

Outro ponto bastante interessante é a complexa atuação de Rutger Hauer, um Replicante da classe Nexus 6 essencialmente tomado por uma transloucada jornada existencialista, englobando toques capazes de aterrorizá-lo e/ou simpatizá-lo aos olhos da platéia. Dependendo das múltiplas interpretações natas ao enredo multifacetado, subjetivo e (principalmente) remexido nas suas mais distintas versões – todas, alterando (leve ou bruscamente) o resultado final (história inclusa, lógico). Apesar de sempre estar apresentável, independente das “variantes editoriais” e suas (subseqüentes) predileções populares.

Versões

Em comemoração aos 25 anos de “Blade Runner”, Scott e Cia. decidiram restaurar a fita, aproveitando este revitalizante processo de acabamento digital para incrementar/mudar efeitos & passagens (antes incompletas). Preparando, conseqüentemente, uma “versão final” complementar a “do diretor” (1994). Assim, quatro “cortes” distintos compõem o DVD de aniversário: o original, a versão internacional e as duas “reconstruções” citadas acima. Do filme que estreou nos cinemas americanos em 82 para a contraparte que correu o mundo, as mudanças foram mínimas: somente quatro momentos foram alterados, todos eles, agregando tons violentos às respectivas seqüências onde foram inseridos (as mesmas que – antes – haviam sido “amenizadas” em solo estadunidense).

Já na versão “do diretor”, mexidas mais profundas foram efetuadas. As partes “violentas” foram novamente retiradas, assim como a narração em off de Ford (que explicava situações – por exigência dos produtores e a contragosto de Ridley), ripadas em adendo ao fatídico “sonho com o unicórnio”, peça que mudaria completamente o conjunto, que até perdeu seu “Happy End” (num encerramento “menos feliz”). Seguindo estas marcações, a “final cut” voltou a incorporar as (ex-cortadas) encenações “sangrentas” e introduzir inúmeras transformações cosméticas (consertando falhas incríveis de continuidade, por exemplo). Fotogramas novos também foram aproveitados, todavia, em menor proporção se comparamos com as transformações das “prévias” anteriores.

Extras

Saindo das quatro versões, todas contando com apresentações especiais do próprio diretor, o DVD triplo de “Blade Runner” ainda contêm três comentários de áudio (não legendados) e um gigantesco documentário sobre “O Caçador de Andróides”. Com mais de três horas e meia de duração, o material explora – separadamente em oito capítulos – todo o processo de realização do título. Um espetáculo imperdível pra quem gosta do assunto (e seus “bastidores”).

Presenteando os fãs com declarações importantes (entre 80 entrevistados), raras imagens estilo making off e vislumbres de trechos não aproveitados. Portanto, inéditos. Fartamente ilustrado por estes recortes, o diálogo entre os ouvidos vai se construindo sem melindre algum, até mesmo, tocando em questões delicadas, evidenciando brigas e problemáticas – que sabidamente marcaram as complicadas gravações deste lúdico ícone FC. Atualizado com informações profundas, detalhes de idéias não filmadas (mas amparados por ilustrações e storyboards de produção) e insights que revelam curiosidades deliciosas (vide o significado de certos Kanjis que brilham no horizonte de L.A. 2019). Resumindo: “Dias Perigosos” é um “especial” que só valoriza o pacote. Naturalmente, já imperdível. E absolutamente precioso em cada disco.

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