Sessão de Cinema – Quantum of Solace: James Bond renasce no século XXI

FILME: 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) EUA, 2008 – Ação – 106 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete Virtual”, 2008.

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Reformulado em “Cassino Royale” (de Martin Campbell), 007 ganhou um novo (sisudo) interprete (o ótimo Daniel Craig) e agora continua se reinventando numa continuação direta da aventura predecessora – feito inédito na série (que sempre apresentou capítulos independentes entre si). “Quantum of Solace” começa no ponto exato em que findava a película anterior (de 2006), com Bond ressentindo a perda de Vesper (Eva Green) e perseguindo a organização secreta que se interpelou entre o recém-formado casal. Costurado por inúmeras seqüenciais de ação, o filme continua a desenvolver a personalidade de James, construindo – pouco a pouco – muitas das características marcantes desta figura icônica na Sétima Arte (vide seu charme/desprendimento com relação às mulheres).

Dirigido por Marc Forster, o mesmo de “A Última Ceia”, a vigésima segunda fita de James Bond ganha em movimentação, mas perde em dramaturgia se compararmos com a excelente ressurreição em “Royale”. Cuja mistura era melhor equilibrada. Inusitadamente, Marc, costumeiramente afeito a obras de profundo valor sentimental, preferiu caprichar no espetáculo em detrimento ao drama intimista, outrora, tão presentes em sua elogiável filmografia. Acelerando o ritmo da câmera no intento de fotografar seqüencialmente cenas e mais cenas de tiroteios e/ou perseguições – sempre mostradas com muita adrenalina. Claramente inspirados pelas vertiginosas peripécias de outro importante espião do cinema recente, Jason Bourne, “Quantum of Solace” apresenta o mesmo tipo de sinergia crua e violenta que encontramos na “contraparte genérica” (aka modernosa) estrelada por Matt Damon (passagens como a excelente luta nos telhados parecem ripadas sintomaticamente da trilogia Bourne). Assumindo, assim, um realismo cinematográfico que destoa completamente das proezas inverossímeis dos antigos Bonds (como Sean Connery e/ou Pierce Brosnan).

Craig, inclusive, colabora demasiadamente neste quesito. Valorizando uma interpretação seca que só demonstra a absoluta frieza do agente 007 – correspondente ao cinismo dos novos tempos – aqui, transformado numa perfeita máquina de matar calculista e virtualmente inabalável. Seguindo incansavelmente suas missões mesmo quando elas contrariam as diretivas do MI6, o famoso serviço secreto britânico. Encabeçada por M, novamente vivida pela dama Judi Dench, a agência segue as modernizações explícitas em seu revivido 00 (ou seja, com “licença para matar”), adquirindo equipamentos Hi-Tec e uma relação mais “desconfiada” com relação aos métodos e atitudes do atualizado Bond. Entrecortando imagens “desconexas” (ilustrativas e pautando certos ritmos que auxiliam muito a edição frenética), Forster acrescenta estilo ao pacote, miscigenando lirismos/abordagens extremamente brutais (a vigília escondida durante um espetáculo é bastante representativa neste sentido), mostrando uma inteligência impulsionada pela suntuosa testosterona.

Distinções quase inseparáveis no protagonista título – doravante ele estar a serviço (da Rainha) e de uma trama pouco empolgante. Com um vilão (Mathieu Amalric) nada impactante (no final das contas, revelando-se um mero lacaio) e uma Bond girl (Olga Kurylenco) meramente passável no âmbito de sua caracterização extremamente clichê (mesmo que a atriz seja, obrigatoriamente, bem bonita) – apoios tacanhos as (já paliativas) políticas internacionais co-relacionadas pelo enredo. Este, colocando Bond numa jornada mundial que atravessa 6 países (um recorde dentro da cinesérie), numa tentativa desesperada para desmascarar os negócios escusos envolvidos na disputa “ilegal” de “certo” bem natural – extremamente – precioso no século XXI. Elemento que ratifica a mudança de prumo adotada pelos produtores, cada vez mais, interessados em repaginar a “imortal” criação de Ian Fleming – em direção ao futuro.

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Matéria ESPECIAL de Entretenimento – Um Brasil que faz videogames!

ESPECIAL Entretenimento: Um Brasil que faz videogames!”. Matéria de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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De muita história nas arenas brasileiras de videogames oficiais, a Tectoy – patrona de eletrônicos e de produtos licenciados pela japonesa SEGA, como o Mega Drive e o Master System – recentemente anunciou uma “bombástica novidade” na direção da sedimentação do universo gamemaníaco verde-amarelo. “Todo o ecossistema será beneficiado, desde o publisher – seja um estúdio internacional ou um desenvolvedor local – que abrirão empregos e alavancarão a indústria de games nacional, até o varejista. Fora o governo que certamente arrecadará mais impostos”, antecipa Fernando Fischer, CEO da companhia, propagandeado a “quarta plataforma mundial”, chamada Zeebo – o mais novo console produzido pela fábrica da empresa (instalada na “Zona Franca” de Manaus). Inicialmente previsto para chegar às lojas tupiniquins no primeiro trimestre de 2009, o Zeebo ganhará posteriormente um lançamento internacional, previsto desde a formação (em 2006) do enorme conglomerado responsável por sua criação/licenciamento (capitaneado pela própria Tectoy). “O Zeebo é um projeto global que envolveu empresas de sete diferentes países: Brasil, EUA, Argentina, China, Israel, Japão e França”, exemplifica Fischer.

Todavia, apesar do apóio de praças importantes, a expectativa é realmente atingir os “emergentes” – uma manobra focada comercialmente nos gamers que ainda não vivem a “realidade” das dispendiosas máquinas de última geração (vide PlayStation 3 e o Xbox 360). “Esses consumidores estão ávidos por uma opção de entretenimento/educação de altíssima tecnologia – a preços acessíveis – e o Zeebo oferece isso”, complementa Fernando. Todavia, para combater muitas das entravas que dificultam a comercialização legalizada de tecnologias “caríssimas” nestes locais, o Zeebo oferece um sistema diferenciado de fornecimento, eliminando as mídias físicas e instalando um – emérito – conjunto de compras “virtuais” – através da rede (wireless) ZeeboNet3G, onde os consumidores poderão conectar-se de graça (diretamente no aparelho) e sem a necessidade de modem – ou gastos extras com banda larga – isso, nos locais onde há cobertura 3G. “Este modelo de negócio é totalmente inovador e trata-se da primeira iniciativa realmente antipirataria no mundo dos games”, diz o CEO da Tectoy, apostando numa estratégia de preços competitivos e alicerçados na impossibilidade de haver “cópias” dos arquivos alocados – sem intermediários – na protegida memória interna do hardware. Uma articulação antipirataria efetuada com os tais Z-Credits, pontos utilizados na obtenção dos jogos via download, os mesmos que serão comprados por meios variados, tipo cartão de débito, cartão de crédito, boleto bancário ou débito em conta corrente.

Tudo usufruindo da peculiar interface exclusiva do Zeebo. Contudo, apesar dos avanços mercadológicos na distribuição simples e segura destas mercadorias, o fator primordial para o sucesso – ou fracasso – da empreitada ficará a cargo da qualidade final de seus games, fundamentalmente. “Estamos trabalhando com franquias de renome, mundialmente famosas, como Eletronic Arts, Activision, Sega, Namco, Capcom, entre outras… E a adesão desses players confirma como nosso pacote é revolucionário”, previne-se Fernando Fischer, preservando total atenção para a excelência dos títulos em desenvolvimento (especialmente pro Zeebo – e contando com localizações em português). Segundo o material de divulgação liberado pela Tectoy, serão 10 jogos saindo simultaneamente nesta primeira leva (mais 50 deles chegando ao longo de 2009), além dos 6 jogos que já virão instalados no Zeebo: “Action Hero 3D”, “Treino Cerebral”, “Prey Evil”, “Quake” e outras 2 peças não-nomeadas (mas confirmadamente de corrida e futebol, respectivamente) da popular Eletronic Arts. Os preços dos games estão previstos para serem a partir de R$ 10,00 cada. O console, por sua vez, está cotado pra ficar na faixa dos R$ 500,00. Curiosamente, também teremos o tal “Acelerômetro” – acessório que dota o joystick de “sensor de movimento”.

Fonte: Tectoy

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Sessão de DVDs – Uniformizando as vertentes distintas de Blade Runner

FILME: Blade Runner: O Caçador de Andróides – Edição Especial Tripla (Blade Runner – 25th Anniversary Edition) EUA, 1982/2007 – Ficção Científica – 448 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete”.

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Considerado um clássico da ficção científica cyberpunk, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” marcou época apesar das inevitáveis críticas recebidas durante seu lançamento em 1982. Carregado de filosofias e conceitos difíceis, o filme foi muito mal compreendido (aka menosprezado) pelo grande público, contudo, seu forte teor noir futurista, além do retrato extremamente realista do “amanhã” (antevendo alguns transtornos mundiais bem contemporâneos como a degradação ambiental/social), lhe garantiram a – fidedígna – admiração de inúmeros expectadores. Que gradativamente o elevaram a fenômeno Cult.

Dirigido por Ridley Scott, autor de “Aliens – O Oitavo Passageiro” (1979) e “Gladiador” (2000), a película se situa numa impressionante Los Angeles multicultural – de penumbra quase ininterrupta nas paisagens lúgrubes, evidentemente. Neste ambiente claustrofobico, apodrecido e chuvoso, encontramos os Blade Runners, unidades especiais licenciadas para caçar – “aposentando” – os Replicantes (andróides humanóides considerados ilegais pelas autoridades autocráticas). Virtualmente idênticas aos humanos, estas réplicas são dotadas, todavia, de um dispositivo de segurança que auxilia nesta tal “desativação”: uma vida útil de apenas quatro anos. Investigando o aparecimento de um grupo destes “robôs” foragidos, Harrison Ford (o eterno Indiana Jones) protagoniza o thriller interpretando Deckard, um matador que segue as convenções do gênero “detetivesco”. Inclusive, se envolvendo apaixonadamente com uma das “suspeitas” principais (vivida por Sean Young). Desenvolvendo um visionário cenário que mescla narrativas noir (de sombras/locais esfumaçados) e características fantásticas (com veículos voadores/autômatos avançados), Ridley quebra paradigmas cinematográficos numa obra-prima madura, dotada de temas importantes (superpopulação, miscigenação, globalização, mundialização…), tonificados por uma “visão” acachapante – literalmente falando – sobre o futuro das megalópoles.

Baseado no conto “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do papa (sci-fi) Philip K. Dick, “Blade Runner” estabeleceu novos parâmetros estilísticos, extrapolando um design cyber-gótico que influenciaria, posteriormente, filmografias inteiras – tipo “Matrix” (1999). Aspectos ressaltados pela trilha composta por Vangelis, de sofisticações que anteparam os notórios avanços visuais do produto, envolvendo amplo esmero/trabalho fotográfico e revigorados efeitos pirotécnico. Supervisionado pelo genial Douglas Trumbull (de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Star Trek – The Motion Picture”), toda a “magia” de “O Caçador de Andróides” advém do artesanato pré-CGI, onde a computação gráfica – apenas – engatinhava frente as particularidades das maquetes e modelos “reais”. Elementos que compensam a foto-semelhança das atuais ferramentas virtuais com um preciosismo/beleza arrebatadores.

Outro ponto bastante interessante é a complexa atuação de Rutger Hauer, um Replicante da classe Nexus 6 essencialmente tomado por uma transloucada jornada existencialista, englobando toques capazes de aterrorizá-lo e/ou simpatizá-lo aos olhos da platéia. Dependendo das múltiplas interpretações natas ao enredo multifacetado, subjetivo e (principalmente) remexido nas suas mais distintas versões – todas, alterando (leve ou bruscamente) o resultado final (história inclusa, lógico). Apesar de sempre estar apresentável, independente das “variantes editoriais” e suas (subseqüentes) predileções populares.

Versões

Em comemoração aos 25 anos de “Blade Runner”, Scott e Cia. decidiram restaurar a fita, aproveitando este revitalizante processo de acabamento digital para incrementar/mudar efeitos & passagens (antes incompletas). Preparando, conseqüentemente, uma “versão final” complementar a “do diretor” (1994). Assim, quatro “cortes” distintos compõem o DVD de aniversário: o original, a versão internacional e as duas “reconstruções” citadas acima. Do filme que estreou nos cinemas americanos em 82 para a contraparte que correu o mundo, as mudanças foram mínimas: somente quatro momentos foram alterados, todos eles, agregando tons violentos às respectivas seqüências onde foram inseridos (as mesmas que – antes – haviam sido “amenizadas” em solo estadunidense).

Já na versão “do diretor”, mexidas mais profundas foram efetuadas. As partes “violentas” foram novamente retiradas, assim como a narração em off de Ford (que explicava situações – por exigência dos produtores e a contragosto de Ridley), ripadas em adendo ao fatídico “sonho com o unicórnio”, peça que mudaria completamente o conjunto, que até perdeu seu “Happy End” (num encerramento “menos feliz”). Seguindo estas marcações, a “final cut” voltou a incorporar as (ex-cortadas) encenações “sangrentas” e introduzir inúmeras transformações cosméticas (consertando falhas incríveis de continuidade, por exemplo). Fotogramas novos também foram aproveitados, todavia, em menor proporção se comparamos com as transformações das “prévias” anteriores.

Extras

Saindo das quatro versões, todas contando com apresentações especiais do próprio diretor, o DVD triplo de “Blade Runner” ainda contêm três comentários de áudio (não legendados) e um gigantesco documentário sobre “O Caçador de Andróides”. Com mais de três horas e meia de duração, o material explora – separadamente em oito capítulos – todo o processo de realização do título. Um espetáculo imperdível pra quem gosta do assunto (e seus “bastidores”).

Presenteando os fãs com declarações importantes (entre 80 entrevistados), raras imagens estilo making off e vislumbres de trechos não aproveitados. Portanto, inéditos. Fartamente ilustrado por estes recortes, o diálogo entre os ouvidos vai se construindo sem melindre algum, até mesmo, tocando em questões delicadas, evidenciando brigas e problemáticas – que sabidamente marcaram as complicadas gravações deste lúdico ícone FC. Atualizado com informações profundas, detalhes de idéias não filmadas (mas amparados por ilustrações e storyboards de produção) e insights que revelam curiosidades deliciosas (vide o significado de certos Kanjis que brilham no horizonte de L.A. 2019). Resumindo: “Dias Perigosos” é um “especial” que só valoriza o pacote. Naturalmente, já imperdível. E absolutamente precioso em cada disco.

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Sessão de Cinema – Registrando o medo através da objetiva da câmera

FILME: [REC] ([REC]) Espanha, 2007 – Terror/Suspense/Drama – 85 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Cinema é um meio audiovisual, sobretudo. Ou seja, apóia-se francamente no conjunto de imagens e sons para nutrir-se de significância. Cinematograficamente falando. Assim sendo, peças até simplistas – em termos de história base – podem se revestir de uma latejante virtuosidade quando narradas de maneira adequada. É o caso deste [REC], uma fita de terror (daquelas bem alternativas) que se apega profundamente na composição – ou decomposição – dos apetrechos sonoros e visuais (de baixo orçamento) para ganhar escopo. Seguindo a vertente do lapidar “A Bruxa de Blair” (1999), este longa-metragem espanhol (lançado em 2007) adere a câmera desnorteada de um protagonista “oculto”, prontamente registrando os acontecimentos para que possamos acompanhá-los em “primeira pessoa”.

Tudo começa durante a gravação de uma reportagem “sem sal” sobre o cotidiano noturno de uma equipe de bombeiros, seguidos até uma “chamada” – aparentemente – pacata. Daí pra frente, o filme se torna um pesadelo de borrões e gritos inaudíveis. Alguns podendo congelar a espinha. Nunca mostrando seu rosto (já que representa os olhos do público), o cameraman (interpretado por David Vert) prossegue com as gravações, independente do rompante de acontecimentos bizarros que se sucederão. Auxiliando sua repórter (vivida por Manuela Velasco) na tarefa de mostrar cada passo deste tormento, enquanto a moça (um elo entre os expectadores e os personagens que permeiam o conto) tenta elucidar as coisas. Que saíram do controle – absolutamente de repente.

Ao ponto deles ficarem presos no aterrorizante local da fatídica ocorrência, junto com os moradores e algumas autoridades. Dirigido pela dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza (de “OT – The Movie”), a película mescla explicações sobrenaturais e certa ameaça palpável de acidente químico/biológico, ambos, servindo mais para climatizar as seqüencias do que para elucidá-las, uma vez que a falta de informações (somadas as nossas imaginações sugestionadas) colabora bastante para aumentar a tensão – nos dois lados da telona. Artimanha esta, primordial para cada susto se tornar horripilantemente natural e não esperado.

Dentro e fora da ficção, sucedendo-se de surpresa (apesar dos inúmeros clichês) e causando um medo genuinamente mortífero, amparado num ambiente cuidadosamente tecido para causar arrepios mesmo quando nada enxergamos (aqui, propositadamente). Só o fato de “algo” estar acontecendo (ou poder acontecer, independente de vermos) já é suficiente pro nosso coração sair através da boca, quase como se implorasse: “alguém, por favor, pode apertar o STOP?” – pelo menos, até recuperarmos o fôlego antes de voltarmos a perdê-lo nas vultosas cenas seguintes. Onde a tormenta continuará até o enigmático fim (porém, lógico se pensarmos que uma continuação já está sendo produzida).

Mesmo apelando pra uma estrutura pouco original, tal formato de lente amadora/nervosa adéqua-se perfeitamente ao intento deste [REC], que expõe em seu título o mote principal do projeto (que curiosamente logo ganhará um remake americanizado): filmar incansavelmente enquanto somos jogados, profundamente, numa viagem – sem volta – aos recantos mais apavorantes da alma humana, usando, para tanto, alguns toques puramente filmológicos. Essencialmente. Balagueró e Plaza estão de parabéns pelo excelente trabalho que realizaram (quase artesanal e acentuadamente criativo – destaque para as tomadas em off, explorando muito bem as deixas tipo “bastidores reais”).

Independentes das semelhanças óbvias deste produto com outras tantas filmografias estilisticamente parecidas – vide o co-irmão citado lá em cima, que empresta adendos valiosos e lhe serve inclusive de alerta, exemplificando como sua segunda parte, por exemplo, perderá prestígio se – tentar – seguir o padrão de “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras” (2002). Vamos aguardar.

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Sessão de Cinema – Tropeçando nos desafios contínuos de Jigsaw

FILME: Jogos Mortais V (Saw V) EUA, 2008 – Terror/Suspense – 92 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Por vezes, o cinema cria “Jasons” que se recusam a morrer, pelo menos, enquanto seus longas estiveram rendendo alguns bons montantes de dinheiro. Mais do que uma resistência ao passamento pessoal, estas “ressurreições cinematográficas” adquirem forças apoiando-se na ganância dos produtores, ávidos em usar/abusar destes “pesadelos” lucrativos. Uma pré-condição capitalista nem um pouco inalcançável se considerarmos o prestígio destas marcas, que arrastam expectadores a cada lançamento –  fora o baixo custo de produção, inerente nas empreitadas estilo “Jogos Mortais V”, filmado sob orçamento controlado – e contando com uma expectativa de retorno (quase sempre) garantido.

Em muito, devido ao sucesso Cult da película original (de 2004), que lhe entrega fieis seguidores, anualmente. Independente da qualidade criativa do novo longa-metragem, prejudicada pela falta de verdadeiro apoio financeiro/humano (a direção, por exemplo, ficou a cargo de David Hackl, um mero “desenhista de produção” no primeiro “Jogos Mortais”). Aleijado de profissionais com maior gabarito, o quinto capítulo insiste em espremer um bagaço que já foi chupado até o último caldo. Jigsaw já está morto, obviamente (vide “Jogos Mortais IV”). Mas nada que impeça seu (comentado) retorno, seja através de flashbacks e/ou vídeos ao estilo: “se estiver vendo isso, significa que eu não estou vivo…”.

Tobin Bell, felizmente, regressa ao psicótico personagem (que valorizou sua carreira), claro, recebendo um ótimo salário e (agora) acompanhado de um cúmplice, este, continuando as ciladas doentias de seu falecido tutor. Assim, as mortíferas armadilhas continuam a “purificar” suas vitimas, entretanto, sem a graça ou o terror psicológico de outrora. Afinal, elas já se tornaram, enfim, repetitivas. Sem novidade alguma. Além de pouco acrescentar a atual trama, enraizada basicamente na perseguição mútua entre detetive Hoffman (Costas Mandylor) e agente Strahm (Scott Patterson). Rivais que freqüentam vertentes opostas num tabuleiro criminal submetido ao conjunto de investigações que resvalam na lembrança de figuras (tipo Danny Glover, “aparecendo” através de fotografias) e cenários já visitados ao longo da série (reaproveitando peças cenográficas inteiras – ripadas para poupar despesas “desnecessárias”).

Registros que se propõem a amarrar diversas pontas “soltas” e solucionar este caso insolúvel (esticado demasiadamente numa quintologia). Só que sequer finalizando em definitivo, obviamente, deixando ganchos – programados de antemão – para uma eventual “continuação”. Elementos “saudosistas” que agradarão (especialmente) os admiradores assíduos, compondo um painel sobre o enredo geral que permeia os cinco “Jogos Mortais”. Apesar deles exigirem irrevogavelmente certo conhecimento prévio dos expectadores, jogados numa conjuntura interconectada de eventos que, caso contrário, não se esclarecem nem apelando pra fatídica exibição (logo na abertura de “Jogos Mortais V”) das tais “cenas do capítulo anterior”. Adendo que consome minutos preciosos de filme para construir um lembrete pouco valido – desconsiderando os preciosos cifrões poupados na reutilização destas passagens (claramente) recicladas.

Aliadas a escuridão exposta sistematicamente no restante da empobrecida fotografia, um recurso “artístico” de intenção dúbia, podendo ser utilizado (disfarçadamente) tanto para dar climatização quanto para “mascarar” os parcos recursos desprendidos durante as gravações (afinal, nada vemos em meio ao breu). Pobreza acentuada pela própria aquisição de um elenco virtualmente “desconhecido”, portanto, incapaz de garantir a aparente ilusão bem-sucedida da obra, cuja boa arrecadação nas bilheterias (aka importância dentro do gênero) destoa do visível esgotamento da franquia, que se diminui na medida em que os advindos “Jogos Mortais” continuam sendo míseros “caça-níqueis”.

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Matéria de Cinema – 007 nos contornos de um ‘Quantum of Solace’

FILME: 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) EUA, 2008 – Ação – 106 min. Matéria de Carlos Campos para o “Claquete Virtual”, 2008.

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A série 007 vem passando por uma reformulação profunda. Repaginado para o século XXI, este popular agente secreto britânico tenta tomar fôlego para continuar sua longa jornada de 22 filmes e 46 anos de carreira – a começar pela contratação de um novo interprete para o personagem. “Já no primeiro teste de câmera que Daniel [Craig] fez para nós, tivemos a certeza de que ele seria um grande Bond. Para começar, era bonito, bastante másculo e se mantém numa excelente forma física – todos os pré-requisitos para o papel. Além disso, é um ótimo ator. E isso é o que realmente importa, tivemos muita sorte dele ter se visto nele e se mostrar disposto a aceitá-lo”, comentam Michael G. Wilson e Barbara Broccoli, produtores-executivos e tutores do longilíneo franchise, propositadamente, “reiniciado” no longa-metragem “Cassino Royale” (2006).

“Nós já inserimos referências a um capítulo em outro, mas desta vez, isso parecia ser uma coisa natural, uma vez que – tantas – questões ficaram sem resposta no final de ‘007 Cassino Royale’. E achamos que nosso público ficará interessado em obtê-las”, explicam Wilson e Broccoli, dando gancho ao mote de “Quantum of Solace”, que ganha uma trama co-relacionada diretamente com a película anterior, feito inédito no vasto currículo 007. “Paira uma grande expectativa sobre os nossos ombros desta vez, o que pode ser uma faca de dois gumes. Todos sempre comentam o fato de ‘Royale’ ter sido uma inovação com relação à filmografia de Bond, e este ‘Solace’ precisa inovar mais uma vez. Contratamos os maiores artistas que pudemos para fazermos o melhor filme Bond possível”, diz Graig, ciente dos desafios (aka cobranças) em tal empreitada.

Para tanto, foi contratado Marc Forster, um diretor experimentado e alternativo. Ou seja, alguém adequado para continuar este processo (citado acima) de mudanças e/ou atualizações. “Para mim, foi uma decisão bem difícil fazer um filme deste quilate, por se tratar de algo tão diferente de tudo o que fiz antes. Quando você dirige um ‘Bond’, vai fazer uma película dentro de certos parâmetros pré-estabelecidos. Há diversos aspectos num 007 que não podem faltar: Bond, as mulheres, os carrões… Contudo, fiquei empolgado com a chance de encontrar um modo criativo de contar essa história dentro desses parâmetros – eu sabia que seria um grande desafio. Foi exatamente esse desafio que me atraiu”, explica o autor de “A Última Ceia” – costumeiramente lembrando por mesclar experiências visuais com trabalhos de fortes nuanças psicológicas. “Muitos dos meus projetos anteriores apresentavam figuras emocionalmente reprimidas. Quando você analisa pessoas que não conseguem exprimir o que sentem, elas são emocionalmente deficientes. Eu me interesso por personagens assim, porque se trata de uma doença comum na humanidade. No final das contas, se você consegue abrir seu coração para o mundo, você se torna uma pessoa mais sensível e consciente. Bond é o perfeito exemplo disso. Ele ainda não sabia, de fato, o que era amar até conhecer Vesper (em ‘Cassino Royale’) e isso lhe foi tirado. Julgando ter sido traído, James fica um tanto desorientado e se torna incapaz de confiar em qualquer pessoa”, filosofa o filmmaker.

“Bond foi profundamente magoado em ‘Royale’. Ele precisava superar a experiência traumática que teve com Vésper, reconhecendo que não pode abandonar o serviço secreto nem encontrar o amor no sentido normal da palavra, formando uma família nem nada parecido. Ele está preso ao seu trabalho e seu mundo é perigoso e violento demais para ser compartilhado. Bond não quer estar vulnerável a chantagens nem quer pôr outras pessoas sob esse risco”, acrescenta a dupla Michael/Barbara, fazendo coro ao discurso de Marc: “O tema central que permeiaSolace’ é a confiança. A confiança pode assumir inúmeras formas diferentes. Em quem nós realmente confiamos? Você confia em si mesmo? Todas as pessoas têm questões relacionadas à confiança, pois em algum momento da vida, todos nós já fomos traídos”, complementa. Tematizações estas, que se aplicam ao curioso – e complicado – nome adotado pelos produtores: “O título veio originalmente de um conto de Ian Fleming (o criador de 007) e significava, naquele contexto,  um relacionamento que não podia ser recuperado, a menos que haja uma ‘Quantum of Solace’ entre ambas as partes. ‘Quantum’ significa ‘uma grande quantidade’ e ‘Solace’ significa ‘consolo’ ou ‘conforto’. No nosso caso, ele quer dizer que Bond está procurando uma ‘porção de consolo’ depois de suas desilusões, e ‘Quantum’, por acaso, também é o nome da organização criminosa do filme”, explanam ambos, em uníssono.

E falando em criminosos, obviamente, 007 luta contra bandidos igualmente contemporâneos. “Infelizmente, hoje em dia, é bem mais difícil identificarmos quem são os vilões nas nossas vidas, e é exatamente isso que estamos buscando mostrar”, esclarece Mathieu Amalric, escalado para viver o arquiinimigo da vez. “Além disso, eu gosto da aversão por sangue de meu personagem. A violência é abstrata e isso também tem a ver com o mundo de hoje, onde se pode fazer tudo por intermédio dos computadores. Desde ‘007 Cassino Royale’, os responsáveis mudaram um pouco a textura desses filmes, procurando algo que tenha mais relação com os tempos atuais e representem melhor a realidade em que vivemos”, relata Amalric, obviamente feliz com os aspectos vanguardistas do produto. “Eu achava que os primeiros episódios dos anos 60 (com Sean Connery no papel de Bond) estavam à frente do seu tempo em termos de visual, e isso me serviu de inspiração. Assim, percebi que havia espaço para se criar um novo estilo para a franquia”, exalta Forster, unindo raízes clássicas & modernas.

“O próprio MI6 se sofisticou substancialmente. Tudo o que preciso dizer é que não creio que o MI6 disponha de recursos para se transformar em nosso MI6. Duvido que eles tenham condições para fazer isso. É algo sensacional, nem usamos mais telefones”, incrementa Judi Dench, regressando (novamente) no papel de ‘M’, a matriarca dos agentes com “liberdade para matar”. Todavia, estas situações técnicas já eram esperadas. “Um filme de Bond é uma gigantesca peça de maquinaria que, para ser posta em funcionamento, requer um empenho extraordinário”, antepara Graig, já se acostumando aos – fortuitos – desígnios enquanto “astro da companhia”: “São tantas as variáveis num filme como este. De certa maneira, tudo ainda é novidade pra mim, mas você precisa agir com segurança e tentar conseguir o maior tempo possível para ensaiar/treinar. Com isso, esperamos agregar ainda mais valor ao resultado final”, entrega Daniel.

“Pensar em dirigir um longa de ação foi muito mais assustador do que, de fato, dirigi-lo. Nestas super produções, você conta com um excelente sistema de apoio e uma equipe com bastante experiência no gênero. Planejar e escrever um trama recheada de ação é mais difícil do que filmá-lo, de fato. O segredo desta aventura está na sua narrativa, porque filmar cenas de ação pela ação (em si) é desinteressante – além de não contribui em nada”, especifica Forster, assumindo completamente a cadeira de direção deste importante 007, uma realização que se destaca até pelo recorde de locações – internacionais – utilizadas num único “Bond Movie” (no total, 7 países foram visitados durante as gravações de “Quantum of Solace”). “Lugares exóticos são uma marca registrada na cinematografia de James Bond. Elas são cruciais no sentido de ajudar a transportar o público para um mundo diferente. Nós também precisávamos encontrar locações que refletissem o estado psicológico do protagonista. Por exemplo, um dos motivos que me fez escolher o deserto foi porque representa a solidão e o isolamento – figurativos ao estado de espírito de Bond”, recorda o cineasta, para a satisfação de seu comandado: “Estou incrivelmente excitado com o que fizemos – e impressionado com o volume de realizações que conseguimos. Usamos diversas locações e o filme tem um visual deslumbrante. Acho que criamos algo realmente especial. Ou melhor: sei que criamos algo realmente especial”, atiça Daniel Graig – vulgo James, James Bond, lógico.

Fonte: Sony Pictures

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Matéria de Cinema – Do cinema real para o documentário de ficção

ESPECIAL Doc/Cinema: Do cinema real para o documentário de ficção”. Matéria de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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O cinema foi criado em 1895 pelos irmãos Lumière (Auguste e Louis), a partir do “cinetoscópio” (!) de Thomas Edson. Sua engenhoca, o cinematógrafo, foi utilizado pela primeira vez numa exibição em Paris, quando a platéia francesa – atônica – assistiu ao primeiro filme destes dois inventores: a chegada do trem na estação. Com estas imagens sendo projetadas numa tela grande, se inventava (conseqüentemente) não só o cinema como também o documentário. A princípio, tal empreendimento seria utilizado apenas para fins científicos, documentando diversas coisas do mundo e registrando seu movimento – uma abordagem sem adornos que ganhou o rótulo de “Naturalista”.

Porém, a falta de visão “artística” dos irmãos cientistas, sobretudo, para as potencialidades de seu invento, não atingiu George Meliès, que elevou tal conceito cinematográfico original para “descobrir” a “magia” do cinema – e com ela, os primeiros retratos fictícios. Aproveitando sua bagagem de ilusionista, o “mago do cinema” usava e abusava das câmeras primitivas para extrair efeitos especiais alegoricamente fantásticos – e jamais vistos pelas platéias – encantando um público ignorante das trucagens feitas com a câmera. Através de filmes como “Viagem à Lua” em 1902, o reconhecido cineasta aprofundava-se na riqueza visual daquilo que viria a ser taxado modernamente de Sétima Arte – por tabela, revelando um de seus primeiros e principais gêneros: a ficção-científica.

Porém, Meliès usou da cinematográfica somente para encantar o público – com seus recursos “mágicos” – sem se aprofundar na “história” propriamente dita. Edwin Porter, a cargo de apresentar o que consideramos como “narrativa”, assumiu a tarefa de contar “A vida de um Bombeiro Americano” em 1902. Com ele, a câmera já não era mais estática, passando a acompanhar a trama, por vezes, se aproximando da ação para mostrar detalhes – alternando e dando ritmo ao filme. De Porter advém também outra importante criação, principalmente, para a cultura norte-americana: o faroeste e as famosas seqüências de “bang-bang”. Seu discípulo, David Griffith, foi além, com ele, nasceu o conceito dos planos – enquadramentos dramáticos que situam a dinâmica na tela e são partes da dita linguagem cinematográfica. O “close” no rosto dos protagonistas, por exemplo, foi apenas uma de suas – inúmeras – inovações filmológicas.

Todas estas façanhas foram propiciadas pela feliz mistura de capacidade criativa e avanço tecnológico, estes, sempre quebrando tradições, trazendo elementos novos e diferentes. E seguindo esta linha, Serge Eisenstein fez de seu “Encouraçado Potemkin” (de 1925) uma revolução cinematográfica inesperada, extraindo (de tudo o que já havia sido bolado historicamente) o último elemento básico do cinema moderno: o conceito da edição. (Desconsiderando a posterior adição do cinema falado.) Disposto a criar seu longa na sala de edição, não durante as filmagens, o artista russo mudou a maneira de enxergarmos a filmografia, colocando nas imagens, antes objetivas, um grau de subjetividade (aka interpretação) completamente ausente (ou relegadas) até então.

Se o cinema nasceu naturalista e documental, agora ele se reveste de ideologias e de pontos de vista distintos – por vezes até conflituosos, fazendo da experiência cinematográfica algo muito mais complexo do que os irmãos Lumière, um dia, sequer imaginaram. Contudo, é justamente o distanciamento da estética natural que propicia o atual reflorescimento do “documental”. Cativo da busca pelas verdades, o formato se moldou novamente para debater assuntos sob pontos de vista específicos (em suma, refletindo os pensamentos ideológicos/pessoais dos produtores) transformando a antropologia cinematográfica comum num estudo vigorosamente amplo, longe da pura e simples observação passiva de outrora.

A evolução da linguagem acabou servindo aos documentaristas, que passaram a registrar suas sagas reais com as mesmas técnicas das narrativas de “mentirinha”. Atualmente, o limite entre ficção e realidade é ainda mais tênue. Grandes verdades são contadas utilizando-se de metáforas, vide “Ilha das Flores” de 1989, obra-prima do brasileiro Jorge Furtado, mais cinematográfico do que documental, apesar de servir ao último – e não a opção anterior.

Mesmo sendo aceito no axioma popular como um produto jornalístico, o documentário está conectado desde suas raízes à dramaturgia (e vice-versa). Cuja realização e veiculação se tornam mais aceitáveis no âmbito cinéfilo do que no campo dos jornais diários – seja pela apropriação das ferramentas e das linguagens que compõem a cinematografia, seja pelo inerente “realismo ficcional”. Basta olharmos qualquer documentário de Michael Moore (“Roger & Eu” de 1989) para percebermos o quanto o cinema, realmente, não surgiu “por acaso” ligado ao documentário. Ou seria – justamente – o contrário?

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