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Críticas de filmes, dvd’s, cd’s e tudo o mais que se fizer necessário.

Sessão de DVD’s – Trapalhadas numa ‘guerra nas estrelas’, cacildes!

FILME: Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (Idem) Brasil, 1978 – Comédia – 89 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete Virtual”.

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“Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante…”, os ecléticos Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, auxiliavam o príncipe Flick a salvar um exótico – e comicamente disco – mundo alienígena de mesmo nome – em “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” de 1878, disponibilizado recentemente em DVD como parte do pacote de novidades que resgata a cinematografia completa do grupo. Parodiando “Star Wars”, este filme foi o primeiro a ter o quarteto, apesar de ser o décimo terceiro longa da popular franquia capitaneada por Renato Aragão nos cinemas brasileiros. Além de apresentar uma sátira “simultânea” ao fenômeno Jedi de forma risonhamente kitsch (até mesmo para os padrões “setentistas” da época).

Alavancado por uma trama reducionista (inteiramente descrita acima), a citada obra consegue transportar os adoráveis heróis trapalhões (depois de uma inusitada perseguição de 14 minutos) para uma campanha “épica” noutro mundo, no intuito de salvar os habitantes locais do tirano com roupa de Darth Vader (apelidado de Zuco) e, lógico, resgatar a princesa raptada pelos agentes do “Lado Negro”. Embalado por músicas e sons bizarramente eletrônicos, de doer os ouvidos com suas herméticas – cafonas – batidinhas anos 70, “Guerra dos Planetas” se caracteriza por uma seqüência interminável de lutas pastelônicas, com replays dos melhores momentos e câmera lenta para ressaltar as “rasteiras” que sobram nestes atrapalhados confrontos. Pouco resta, portanto, para a trama infantilmente genérica – relegada diante da muvuca de pontapés – aka humor vigorosamente involuntário – que impera neste completo “circo” cósmico.

Em termos cinematográficos, o produto falha feio nas brincadeiras sem-graça sobre “Guerra nas Estrelas”, elaborando co-relações pouco condizentes e/ou inspiradas pelas artimanhas de Luke e Cia, relegando tal “homenagem galhofa” para as aparições pontuais de certos personagens/locais. Que tentam nos remeter aos similares (vulgo originais) encontrados no “Episódio IV”, tipo o Chewbacca mal encarado (que chega a tragar um “cigarrinho” após dar “conta” de um bando inimigo) e algumas dunas/cantinas espalhadas pelo caminho “sintético”. Gravado em vídeo e transferido posteriormente para película, a fita abusa dos (de)efeitos eletrônicos, usando o Chroma Key pros ambientes mais extraterrenos e naves espaciais de brinquedo – pouco articuladas – durante as precárias viagens interplanetárias. Visualmente desestimulante, a peça parece jurássica se compararmos (sobretudo) com a primazia técnica da space opera dirigida por George Lucas (em 1977), revelando um envelhecimento precoce que se acelera rapidamente através do enredo limitado, cheio de nonsenses e estereótipos da medonha ficção científica gonzo comum ao período – marcado pelas luzes de neon (tão cintilantes nas típicas cenografias de alumínio).

Enfraquecido pelas esquisitices da narrativa criada pelo cineasta Adriano Stuart, “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” se sobressai somente quanto ao teor politicamente incorreto de algumas gags. Inferior aos diversos mega-sucessos estrelados pelos “Trapalhões”, o título comunga de suas “inapropriadas” piadas (desenvolvidas desde o debute do humorístico homônimo na TV), vide a cena dos “prisioneiros de guerra” sendo bem “sacaneados” pela trupe de Renato. Atazanando os “indefesos” bandidos com uma “tiração de sarro” completamente ofensiva aos “bons costumes” atuais… Elementos que, independente das bobagens correspondentes, lhe valeram uma bilheteria estimada de 5.089.869 expectadores no Brasil. Um valor excepcional, principalmente, em se tratando de uma comédia/sci-fi beligerantemente “B”. No pior dos sentidos, claro.

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Fora a “versão” do próprio filme “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” em mp4, nenhum “material adicional” foi anexado ao paupérrimo pacote.

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Sessão de Cinema – Trajando estranhos e competentes efeitos minimalistas

FILME: Os Estranhos (The Strangers) EUA, 2008 – Suspense/Terror – 85 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Existe um minimalismo muito interessante neste bem-cultuado “Os Estranhos”. Dirigido pelo (bom) estreante Bryan Bertino (também roteirista), o longa-metragem parece apostar na simplicidade, contando uma história de terror categoricamente básica, com poucos personagens (8 no total) e um único cenário de fundo: certa cabana isolada do mundo. Tudo se resumindo, no micro-enredo que abre a película, a uma noite do casal vivido por Liv Tyler (da trilogia “O Senhor dos Anéis”) e Scott Speedman (saído do popular seriado “Felicity”), que já começa mal após um desentendimento entre eles, seguido por uma mortal invasão de domicilio – perpetrada pelos tais “estranhos” descritos (sorrateiramente) no título.

Ainda sofrendo os reveses dos recentes problemas conjugais, os dois se vêem presos e ameaçados pelos três psicopatas (por vezes, se multiplicando como se fossem inúmeros “fantasmas”) ocultos nas cercanias, enfrentando a gelada madrugada – que se pronuncia “interminável” na companhia de algozes tão fatídicos (aka bizarramente aterrorizantes). Usando de sons apropriadamente horripilantes e trilhas climáticas inteligentes nos momentos de suscitar (ou meramente desviar) a tensão, Bertino vai sistematicamente construindo a atmosfera ideal para conseguir amedrontar (furtivamente) os expectadores sem desprender maiores esforços – estes, podados pelo orçamento super limitado. Na verdade, o “universo” da película se avoluma pela excelente faixa sonora, que sugestiona eventos sequer filmados/mostrados. “Impactando” seqüências (ou ambientes) através de ferramentas audíveis e funcionalmente “invisíveis”. Além de baratas, eficazes e – claro – cinematográficas. Verdadeiramente.

Toques que se tornam elementos auxiliares da bonita fotografia avermelhada que permeia a fita, enfeitando cada take com um verniz “correspondente” ao sangue derramado pela trama (onde a derrama é suavizada pela câmera, pouco explícita, preferindo assustar realmente pelo terror psicológico – ao invés de “investir forte” na sangria desenfreada). Seguindo os co-protagonistas de perto (sobretudo a linda filha de Steven Tyler), a narrativa limita-se a acompanha o pesadelo desferido contra Speedman/Liv, dosando momentos de calmaria com transições abstratamente sugestivas (antes do “suspense” desembocar num clímax genuíno, independente das temáticas pouco originais). Preparando o expectador e garantindo alguns sustos sinceros, apesar dos repentinos clichês e/ou infelizes coincidências que comprometem a veracidade do relato (vide o celular esquecido no carro, o amigo que chega – inesperadamente antes da hora marcada – sem avisar e/ou a moça que fica sem cigarro, justamente, às 04h00).

Doravante o conjunto estar “baseado em fatos reais”. Portanto, poderia ter evitado vários “exageros ficcionais” nas artimanhas narrativas adotadas (tipo alguém sumir em questão de segundos). Todavia, estas indulgências são uma miudeza passageira perto da torturante ação dos “visitantes” encapuzados. Sabiamente, Bryan garante o anonimato deles, jamais revelando seus rostos, desviando a imagem em close (propositadamente) para que possamos formatá-las nas nossas mentes. Sozinhos. Criando, assim, uma aura em torno dos bandidos que só ajuda na mitificação da periculosidade que o sombrio trio representa. Do primeiro ao último suspiro. Fenomenologia que se apropria comercialmente desta “identidade preservada” pregada pelos “Os Estranhos”, garantindo a sobrevida do produto nas (planejadas) futuras continuações.

Que agora não dependem – nadinha – do dito elenco principal – nem de outros detalhes envolvendo contratos (como reajustes salariais). Afinal, a mensagem do projeto é claríssima: não importa quem esteja por detrás da fantasia, contanto que a “máscara do dia das bruxas” funcione perfeitamente, pode ser qualquer transeunte. Desde que – no fim – o teor assuste. Mantendo o espírito (artístico-financeiro) de registrar “apenas o estritamente necessário”. Nada mais.

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Sessão de Cinema – Dando alguns tiros furados no cinema “não-jogável”

FILME: Max Payne (Max Payne) EUA, 2008 – Policial/Ação – 100 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Existe uma deficiência crônica nos filmes baseados em jogos: é mais divertido jogá-los do que assisti-los. “Max Payne” não foge a regra. Apesar do chavão desta análise, que surge repetidamente desde quando games (como “Street Fighter”) despontaram nas telonas. Originário no popular título da finlandesa Remedy Entertainment, o longa homônimo até honra a mitologia da série, mantendo-se fiel as notáveis referências extraídas da cultura nórdica e aos inúmeros cacoetes narrativos, contudo, o enredo passável – inundado de clichês policiais – se verifica quase intragável quando destituído do quesito “jogabilidade” (ato celebradamente não-passivo), inerente aos catárticos videogames.

Impossibilitado de assumir o controle da situação, o expectador encontra na película muitos dos maneirismos da versão “gamística”, entretanto, o produto (em si) perde apelo ao se desenvolver num conjunto de intrigas confusas e direções (comandadas por John Moore) extremamente cafonas (vide a edição esquematizada). Elementos que “apagam”, inclusive, os esperados momentos pirotécnicos. Estes, competentes. E bem minguados, infelizmente. Fartamente freqüentado por figuras bidimensionais, a história se desenrola por meandros tortos, mal explicando co-relações entre os personagens e extrapolando os onipresentes aspectos caricatos dos mesmos. Nesta apoteose de gente que entra/sai da projeção sem demonstrar sua significância pra caótica trama (envolvendo a produção de uma nova droga alucinógena), temos Max Payne – interpretado por Mark Wahlberg, agindo numa carranca folgada e andando como se fosse virtualmente indestrutível (a passagem dele atravessando a rua sem se importar pros carros é bem representativa deste desprendimento).

Pena que Wahlberg (de “Planeta dos Macacos”) exagera na dose, aparentando uma fragilidade gigantesca nos poucos momentos de “cabeça baixa” e uma invulnerabilidade absurda nos momentos de “queixo erguido”. Sem qualquer meio-termo. Passeando pelo submundo do crime, o detetive Max é estimulado pela vingança, movimentando um tabuleiro atribulado por típicas traições – mecanismos “invisíveis” que farão tanto a polícia quanto a máfia se voltarem contra ele. Iniciando, assim, os confrontos físicos entre mocinhos/bandidos e a fase do “Bullet Time”, um efeito cinematográfico que desacelera a imagem (estilo “Matrix”), escancarando os tiroteios (detalhadamente) em slow-motion. Comungado pelo “third-person shooter” que lhe empresta o nome, a obra filmada manifesta a mesma estilização das seqüências de ação encontradas no “Max Payne” lançado (sucedidamente) para PC/PS2/Xbox (todos em 2001). Peça que acerta o clima, mas já aparenta sofrer overdose após tantos anos de banalização – decorrentes do uso indiscriminado dentro da Sétima Arte.

De impactante mesmo, temos as cinematográficas “mega-alucinações” que presenteiam a fértil imaginação dos usuários do composto Valkyr. Revelando “visões” de anjos caídos e abstraindo um cenário “transmorficamente” apocalíptico, tais efeitos ajudam a criar uma atmosfera sinergicamente “infernal” (amparada numa direção de arte inspirada pelo noir) – algo extremamente condizente com o calvário vivido pelo protagonista, cegamente aprisionado num círculo simbiótico (e vicioso) de “crimes & pecados”. Que vitimam sua mulher e muitas das femme fatales que (azaradamente) cruzam a jornada deste herói renegado (como a Bond-girl Olga Kurylenko, atriz de “Quantum of Solace”). Todavia, Payne parece se perder no meio destas preposições mal-costuradas, reagindo de forma menos chamativa do que sua experta contraparte poligonal. Eles até mostram certo sincronismo (a temática do longa-metragem é bastante similar ao texto original), porém, acabam se distanciando frente ao acabamento dualístico, contrapondo os limites e/ou as qualidades de duas mídias (co-irmãs) aparentemente “incompatíveis”. Termo que impede o sucesso “absoluto” destas fadadas adaptações. Há tempos.

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Sessão ESPECIAL de DVD’s – “Nós não estamos sozinhos”, diz Spielberg

FILME: Contatos Imediatos do Terceiro Grau – Edição Especial Tripla (Close Encounters of the Third Kind – 30th Anniversary Ultimate Edition) EUA, 1977/1980/2007 – Ficção Científica – 238 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Uma das peças primordiais na filmografia de Steven Spielberg, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) carrega alguns dos relatos cinematográficos mais inteligentes (aka interessantes) sobre o peculiaríssimo fenômeno UFO, mostrando-o numa faceta “realista” e distante das “vertentes” pouco pacíficas encontradas costumeiramente na belicosa ficção científica ao estilo “Guerra dos Mundos” (1953). Produzido após o arrasa-quarteirão “Tubarão” (1975), o longa se lambuja da importante mão mágica do criador de “E.T.” (1982), pontuando suas passagens com uma sensação maravilhosa de plena “fantasia adulta”.

Atraindo expectadores e o próprio personagem de Richard Dreyfuss para uma busca – compulsória – pelos tais objetos luminosos “não identificados” que cruzam os céus estadunidenses – até o acachapante “contato imediato” no sopé de uma montanha, quando assistimos (estupefatos) ao espetacular encontro de “terceiro grau” descrito pelo título. Spielberg esmiúça os tais OVNI’s, expondo muito das peculiaridades que marcam o tema, como as especulações científicas e os estranhos avistamentos. Sabiamente pontuando as ações através dos preceitos “fanáticos” de um homem comum (Dreyfuss), o recitado diretor vai construindo um crescente empolgante de descobertas (capitaneadas pela figura vivida pelo espetacular diretor/ator francês, François Truffaut), revelando inexplicáveis aparições repentinas de aeronaves e barcos antigos (dados como desaparecidos) nos pontos mais improváveis do globo. Sem contar as pessoas perseguindo – e sendo perseguidas – pelos diversos bólidos alienígenas.

Adendos que aumentam a emoção de uma trama alicerçada estritamente pelas elementares “5 notas famosas” criadas por John Williams (o emérito compósito da sexalogia “Star Wars”) ilustrando perfeitamente a comunicação musical (alegoricamente luminosa e multi-colorida) entre terráqueos/extraterrestres. Contando com este escore tão representativo e lindamente composto, a produção ornamenta o derivado final se esbaldando de efeitos especiais perfeitamente condizentes. Bem bolados pelo habilidoso Douglas Trumbull, eles adquirem uma importância fundamental nos momentos de potencializar o etéreo fascínio provocado pela impactante história, moldada na brilhante narrativa (apaixonadamente) pensada/escrita pessoalmente por Spielberg. Muito longe de parecer datado, “Contatos Imediatos” continua atualíssimo e condizente com as modernas discussões encontradas nas rodas ufológicas, mantendo sua integridade original intacta e re-valorizando algumas das seqüências “spielbergianas” mais lembradas pelos admiradores deste cultuado cineasta. Vide takes elementares como “a criança encoberta pela luz após abrir a porta” e/ou a (gigantesca) nave-mãe se aproximando da área de pouso.

Plenamente capaz de continuar mexendo com nosso imaginário coletivo, o longa na verdade evoluiu bastante através dos anos, ganhado até uma releitura diferente em 1980 (chamada de “Edição Especial”), quando Steven conseguiu finalizar várias das idéias inacabadas (ou sequer tocadas), sobretudo, pela urgência de antecipar o lançamento do filme, anteriormente previsto para 1978. Concertando o ritmo e agregando complementos importantíssimos pro sucesso atemporal da empreitada, esta “reedição” ficou marcada pela inclusão da (polêmica) encenação onde Richard vislumbra o interior da espaçonave alien. Todavia, recentemente Spielberg pôde refinar tal material, reparando e aparando arestas numa “versão do diretor” que suplanta as duas encarnações anteriores – reunindo o que ambas tinham de melhor. Excluindo o final citado acima e resgatando muito do fascínio nato pelo “desconhecido”. Insinuado, contudo, nunca estragando o clima de “mistério” anteriormente tão apregoado pela obra. Reconstituindo, assim, uma característica primordial – e indistinta – de “Contatos Imediatos” na sua forma “definitivamente definitiva”.

Extras

O DVD triplo de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” apresenta as três versões do clássico, acompanhadas de um ótimo documentário dividido tipo trilogia, além de materiais complementares, como trailers, vídeo-propaganda da época e uma inédita entrevista com o autor Steven Spielberg – falando dos 30 anos desta película-mestra, evento devidamente comemorado pelo pacote remasterizado. Virtualmente obrigatório para os colecionadores assíduos.

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Sessão de Cinema – Espelhando alguns equívocos da completa falta de sutileza

FILME: Espelhos do Medo (Mirrors) EUA, 2008 – Terror – 110 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

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Aterrissando aos montes em Hollywood, os remakes baseados em filmes orientais já se tornaram – praticamente – um subgênero dentro da “reciclada” cinematografia norte-americana. Sempre apostando em espíritos desgarrados (aka malévolos), estas obras inevitavelmente enfrentam um processo de completa descaracterização quando pisam em solo ocidental – território propício a sangrias fortes e explícitas – elementos secundários no oriente, onde as tramas se focam, sobretudo, na ambientação e no psicológico afetado de personagens/público.

Seguindo tal “defeito” congênito, “Espelhos do Medo” talvez seja a ninhada que tenha sofrido mais avalias nesta transposição entre vertentes narrativas tão diametralmente distintas. E cinematograficamente antagônicas. Adaptado do conto sul-coreano “Espelho” (lançado em 2003), a película trata o assunto (comumente encontrado nos co-irmãos “O Chamado” e “O Grito”) sem sutileza alguma, despejando seqüências violentas e entregando as surpresas da trama a cada anticlimático “efeito especial” fantasmagórico. Produzido e estrelado por Kiefer Sutherland, o protagonista do seriado “24 Horas”, a fita escorrega logo que escancara a “maldade” que freqüenta os tais espelhos que recheiam o produto, abarrotado por eles – a cada esquina ou cantinho fotografado pela câmera (mostrando-os até exageradamente, algo que beira a obsessão…).

Interpretando um ex-policial que tenta se virar como vigia noturno, Kiefer se convalece numa loja de conveniências abandonada – após um incêndio – descobrindo em suas jornadas noturnas os “Espelhos do Medo” sugeridos pelo título, que infernizam o sujeito lhe mostrando reflexos escabrosos, além de projetar alguns sons bem assustadores (em uníssono). Como se fosse uma “casa mal assombrada”, portanto. Contudo, o que a principio sugeriria uma grande contraposição entre a questionável veracidade de cada acontecimento e/ou uma possível peça pregada pela mente abalada da persona (ex-alcoólatra) de Sutherland (tentando se reerguer no novo emprego), termina sucumbindo bruscamente ao abraçar uma tramóia menos envolvente, onde logo fica nítido a origem sobrenatural destes fenômenos “inexplicáveis”. Que rapidamente desbocam numa alavancada final ao estilo “O Exorcista” (uma comparação penosa para qualquer filme do gênero – rivalizando-se com um “clássico”).

Assim, o diretor Alexandre Aja (autor de “Alta Tensão”) perde muito do interesse construído no início “climático”, banalizando os sustos prevendo-os antecipadamente nos momento onde a pirotecnia ganha destaque e os litros de sangue começam a jorrar – como se fossem os únicos itens aterrorizantes nas artimanhas cênicas utilizadas pela limitada produção. A cena da mandíbula destroçada, por exemplo, garante o arrepio daqueles que detestam imagens absurdamente violentas, doravante apostar numa direção não condizente com o contexto “agindo nas sombras” onde se insere. Longe de mexer com os brios do expectador rodado, a previsibilidade do teor fantasioso – que se apropria do conjunto original – prejudica o resultado final de maneira irreversível.

Transformando tudo numa mera exposição de “especilhos” encapetados, amparados por clichês efêmeros (pombas que se passam por assombrações barulhentas) e por uma quantidade dantesca de caretas patéticas (Kiefer principalmente), frutos da parca tensão sugestionada (justamente) nos instantes que deveriam “congelar a espinha”. Aprisionado por uma abordagem incapaz de dar total vazão ao “medo” desfilado pelos “espelhos” espalhados (sempre compulsoriamente) pela projeção, “Espelhos do Medo” empalidece diante das possibilidades abertas por um conceito tão interessante (o “mundo” refletido pelos vidros), deixando de aproveitar sua natureza “intimista” em prol do sangrento (e desgastado) festival fetichista – “americanizado” demais.

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Sessão de Cinema – Quantum of Solace: James Bond renasce no século XXI

FILME: 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) EUA, 2008 – Ação – 106 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete Virtual”, 2008.

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Reformulado em “Cassino Royale” (de Martin Campbell), 007 ganhou um novo (sisudo) interprete (o ótimo Daniel Craig) e agora continua se reinventando numa continuação direta da aventura predecessora – feito inédito na série (que sempre apresentou capítulos independentes entre si). “Quantum of Solace” começa no ponto exato em que findava a película anterior (de 2006), com Bond ressentindo a perda de Vesper (Eva Green) e perseguindo a organização secreta que se interpelou entre o recém-formado casal. Costurado por inúmeras seqüenciais de ação, o filme continua a desenvolver a personalidade de James, construindo – pouco a pouco – muitas das características marcantes desta figura icônica na Sétima Arte (vide seu charme/desprendimento com relação às mulheres).

Dirigido por Marc Forster, o mesmo de “A Última Ceia”, a vigésima segunda fita de James Bond ganha em movimentação, mas perde em dramaturgia se compararmos com a excelente ressurreição em “Royale”. Cuja mistura era melhor equilibrada. Inusitadamente, Marc, costumeiramente afeito a obras de profundo valor sentimental, preferiu caprichar no espetáculo em detrimento ao drama intimista, outrora, tão presentes em sua elogiável filmografia. Acelerando o ritmo da câmera no intento de fotografar seqüencialmente cenas e mais cenas de tiroteios e/ou perseguições – sempre mostradas com muita adrenalina. Claramente inspirados pelas vertiginosas peripécias de outro importante espião do cinema recente, Jason Bourne, “Quantum of Solace” apresenta o mesmo tipo de sinergia crua e violenta que encontramos na “contraparte genérica” (aka modernosa) estrelada por Matt Damon (passagens como a excelente luta nos telhados parecem ripadas sintomaticamente da trilogia Bourne). Assumindo, assim, um realismo cinematográfico que destoa completamente das proezas inverossímeis dos antigos Bonds (como Sean Connery e/ou Pierce Brosnan).

Craig, inclusive, colabora demasiadamente neste quesito. Valorizando uma interpretação seca que só demonstra a absoluta frieza do agente 007 – correspondente ao cinismo dos novos tempos – aqui, transformado numa perfeita máquina de matar calculista e virtualmente inabalável. Seguindo incansavelmente suas missões mesmo quando elas contrariam as diretivas do MI6, o famoso serviço secreto britânico. Encabeçada por M, novamente vivida pela dama Judi Dench, a agência segue as modernizações explícitas em seu revivido 00 (ou seja, com “licença para matar”), adquirindo equipamentos Hi-Tec e uma relação mais “desconfiada” com relação aos métodos e atitudes do atualizado Bond. Entrecortando imagens “desconexas” (ilustrativas e pautando certos ritmos que auxiliam muito a edição frenética), Forster acrescenta estilo ao pacote, miscigenando lirismos/abordagens extremamente brutais (a vigília escondida durante um espetáculo é bastante representativa neste sentido), mostrando uma inteligência impulsionada pela suntuosa testosterona.

Distinções quase inseparáveis no protagonista título – doravante ele estar a serviço (da Rainha) e de uma trama pouco empolgante. Com um vilão (Mathieu Amalric) nada impactante (no final das contas, revelando-se um mero lacaio) e uma Bond girl (Olga Kurylenco) meramente passável no âmbito de sua caracterização extremamente clichê (mesmo que a atriz seja, obrigatoriamente, bem bonita) – apoios tacanhos as (já paliativas) políticas internacionais co-relacionadas pelo enredo. Este, colocando Bond numa jornada mundial que atravessa 6 países (um recorde dentro da cinesérie), numa tentativa desesperada para desmascarar os negócios escusos envolvidos na disputa “ilegal” de “certo” bem natural – extremamente – precioso no século XXI. Elemento que ratifica a mudança de prumo adotada pelos produtores, cada vez mais, interessados em repaginar a “imortal” criação de Ian Fleming – em direção ao futuro.

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Sessão de DVDs – Uniformizando as vertentes distintas de Blade Runner

FILME: Blade Runner: O Caçador de Andróides – Edição Especial Tripla (Blade Runner – 25th Anniversary Edition) EUA, 1982/2007 – Ficção Científica – 448 min. Resenha de Carlos Campos para o “Claquete”.

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Considerado um clássico da ficção científica cyberpunk, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” marcou época apesar das inevitáveis críticas recebidas durante seu lançamento em 1982. Carregado de filosofias e conceitos difíceis, o filme foi muito mal compreendido (aka menosprezado) pelo grande público, contudo, seu forte teor noir futurista, além do retrato extremamente realista do “amanhã” (antevendo alguns transtornos mundiais bem contemporâneos como a degradação ambiental/social), lhe garantiram a – fidedígna – admiração de inúmeros expectadores. Que gradativamente o elevaram a fenômeno Cult.

Dirigido por Ridley Scott, autor de “Aliens – O Oitavo Passageiro” (1979) e “Gladiador” (2000), a película se situa numa impressionante Los Angeles multicultural – de penumbra quase ininterrupta nas paisagens lúgrubes, evidentemente. Neste ambiente claustrofobico, apodrecido e chuvoso, encontramos os Blade Runners, unidades especiais licenciadas para caçar – “aposentando” – os Replicantes (andróides humanóides considerados ilegais pelas autoridades autocráticas). Virtualmente idênticas aos humanos, estas réplicas são dotadas, todavia, de um dispositivo de segurança que auxilia nesta tal “desativação”: uma vida útil de apenas quatro anos. Investigando o aparecimento de um grupo destes “robôs” foragidos, Harrison Ford (o eterno Indiana Jones) protagoniza o thriller interpretando Deckard, um matador que segue as convenções do gênero “detetivesco”. Inclusive, se envolvendo apaixonadamente com uma das “suspeitas” principais (vivida por Sean Young). Desenvolvendo um visionário cenário que mescla narrativas noir (de sombras/locais esfumaçados) e características fantásticas (com veículos voadores/autômatos avançados), Ridley quebra paradigmas cinematográficos numa obra-prima madura, dotada de temas importantes (superpopulação, miscigenação, globalização, mundialização…), tonificados por uma “visão” acachapante – literalmente falando – sobre o futuro das megalópoles.

Baseado no conto “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do papa (sci-fi) Philip K. Dick, “Blade Runner” estabeleceu novos parâmetros estilísticos, extrapolando um design cyber-gótico que influenciaria, posteriormente, filmografias inteiras – tipo “Matrix” (1999). Aspectos ressaltados pela trilha composta por Vangelis, de sofisticações que anteparam os notórios avanços visuais do produto, envolvendo amplo esmero/trabalho fotográfico e revigorados efeitos pirotécnico. Supervisionado pelo genial Douglas Trumbull (de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Star Trek – The Motion Picture”), toda a “magia” de “O Caçador de Andróides” advém do artesanato pré-CGI, onde a computação gráfica – apenas – engatinhava frente as particularidades das maquetes e modelos “reais”. Elementos que compensam a foto-semelhança das atuais ferramentas virtuais com um preciosismo/beleza arrebatadores.

Outro ponto bastante interessante é a complexa atuação de Rutger Hauer, um Replicante da classe Nexus 6 essencialmente tomado por uma transloucada jornada existencialista, englobando toques capazes de aterrorizá-lo e/ou simpatizá-lo aos olhos da platéia. Dependendo das múltiplas interpretações natas ao enredo multifacetado, subjetivo e (principalmente) remexido nas suas mais distintas versões – todas, alterando (leve ou bruscamente) o resultado final (história inclusa, lógico). Apesar de sempre estar apresentável, independente das “variantes editoriais” e suas (subseqüentes) predileções populares.

Versões

Em comemoração aos 25 anos de “Blade Runner”, Scott e Cia. decidiram restaurar a fita, aproveitando este revitalizante processo de acabamento digital para incrementar/mudar efeitos & passagens (antes incompletas). Preparando, conseqüentemente, uma “versão final” complementar a “do diretor” (1994). Assim, quatro “cortes” distintos compõem o DVD de aniversário: o original, a versão internacional e as duas “reconstruções” citadas acima. Do filme que estreou nos cinemas americanos em 82 para a contraparte que correu o mundo, as mudanças foram mínimas: somente quatro momentos foram alterados, todos eles, agregando tons violentos às respectivas seqüências onde foram inseridos (as mesmas que – antes – haviam sido “amenizadas” em solo estadunidense).

Já na versão “do diretor”, mexidas mais profundas foram efetuadas. As partes “violentas” foram novamente retiradas, assim como a narração em off de Ford (que explicava situações – por exigência dos produtores e a contragosto de Ridley), ripadas em adendo ao fatídico “sonho com o unicórnio”, peça que mudaria completamente o conjunto, que até perdeu seu “Happy End” (num encerramento “menos feliz”). Seguindo estas marcações, a “final cut” voltou a incorporar as (ex-cortadas) encenações “sangrentas” e introduzir inúmeras transformações cosméticas (consertando falhas incríveis de continuidade, por exemplo). Fotogramas novos também foram aproveitados, todavia, em menor proporção se comparamos com as transformações das “prévias” anteriores.

Extras

Saindo das quatro versões, todas contando com apresentações especiais do próprio diretor, o DVD triplo de “Blade Runner” ainda contêm três comentários de áudio (não legendados) e um gigantesco documentário sobre “O Caçador de Andróides”. Com mais de três horas e meia de duração, o material explora – separadamente em oito capítulos – todo o processo de realização do título. Um espetáculo imperdível pra quem gosta do assunto (e seus “bastidores”).

Presenteando os fãs com declarações importantes (entre 80 entrevistados), raras imagens estilo making off e vislumbres de trechos não aproveitados. Portanto, inéditos. Fartamente ilustrado por estes recortes, o diálogo entre os ouvidos vai se construindo sem melindre algum, até mesmo, tocando em questões delicadas, evidenciando brigas e problemáticas – que sabidamente marcaram as complicadas gravações deste lúdico ícone FC. Atualizado com informações profundas, detalhes de idéias não filmadas (mas amparados por ilustrações e storyboards de produção) e insights que revelam curiosidades deliciosas (vide o significado de certos Kanjis que brilham no horizonte de L.A. 2019). Resumindo: “Dias Perigosos” é um “especial” que só valoriza o pacote. Naturalmente, já imperdível. E absolutamente precioso em cada disco.

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