Matéria de Cinema – 007 nos contornos de um ‘Quantum of Solace’

FILME: 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) EUA, 2008 – Ação – 106 min. Matéria de Carlos Campos para o “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

A série 007 vem passando por uma reformulação profunda. Repaginado para o século XXI, este popular agente secreto britânico tenta tomar fôlego para continuar sua longa jornada de 22 filmes e 46 anos de carreira – a começar pela contratação de um novo interprete para o personagem. “Já no primeiro teste de câmera que Daniel [Craig] fez para nós, tivemos a certeza de que ele seria um grande Bond. Para começar, era bonito, bastante másculo e se mantém numa excelente forma física – todos os pré-requisitos para o papel. Além disso, é um ótimo ator. E isso é o que realmente importa, tivemos muita sorte dele ter se visto nele e se mostrar disposto a aceitá-lo”, comentam Michael G. Wilson e Barbara Broccoli, produtores-executivos e tutores do longilíneo franchise, propositadamente, “reiniciado” no longa-metragem “Cassino Royale” (2006).

“Nós já inserimos referências a um capítulo em outro, mas desta vez, isso parecia ser uma coisa natural, uma vez que – tantas – questões ficaram sem resposta no final de ‘007 Cassino Royale’. E achamos que nosso público ficará interessado em obtê-las”, explicam Wilson e Broccoli, dando gancho ao mote de “Quantum of Solace”, que ganha uma trama co-relacionada diretamente com a película anterior, feito inédito no vasto currículo 007. “Paira uma grande expectativa sobre os nossos ombros desta vez, o que pode ser uma faca de dois gumes. Todos sempre comentam o fato de ‘Royale’ ter sido uma inovação com relação à filmografia de Bond, e este ‘Solace’ precisa inovar mais uma vez. Contratamos os maiores artistas que pudemos para fazermos o melhor filme Bond possível”, diz Graig, ciente dos desafios (aka cobranças) em tal empreitada.

Para tanto, foi contratado Marc Forster, um diretor experimentado e alternativo. Ou seja, alguém adequado para continuar este processo (citado acima) de mudanças e/ou atualizações. “Para mim, foi uma decisão bem difícil fazer um filme deste quilate, por se tratar de algo tão diferente de tudo o que fiz antes. Quando você dirige um ‘Bond’, vai fazer uma película dentro de certos parâmetros pré-estabelecidos. Há diversos aspectos num 007 que não podem faltar: Bond, as mulheres, os carrões… Contudo, fiquei empolgado com a chance de encontrar um modo criativo de contar essa história dentro desses parâmetros – eu sabia que seria um grande desafio. Foi exatamente esse desafio que me atraiu”, explica o autor de “A Última Ceia” – costumeiramente lembrando por mesclar experiências visuais com trabalhos de fortes nuanças psicológicas. “Muitos dos meus projetos anteriores apresentavam figuras emocionalmente reprimidas. Quando você analisa pessoas que não conseguem exprimir o que sentem, elas são emocionalmente deficientes. Eu me interesso por personagens assim, porque se trata de uma doença comum na humanidade. No final das contas, se você consegue abrir seu coração para o mundo, você se torna uma pessoa mais sensível e consciente. Bond é o perfeito exemplo disso. Ele ainda não sabia, de fato, o que era amar até conhecer Vesper (em ‘Cassino Royale’) e isso lhe foi tirado. Julgando ter sido traído, James fica um tanto desorientado e se torna incapaz de confiar em qualquer pessoa”, filosofa o filmmaker.

“Bond foi profundamente magoado em ‘Royale’. Ele precisava superar a experiência traumática que teve com Vésper, reconhecendo que não pode abandonar o serviço secreto nem encontrar o amor no sentido normal da palavra, formando uma família nem nada parecido. Ele está preso ao seu trabalho e seu mundo é perigoso e violento demais para ser compartilhado. Bond não quer estar vulnerável a chantagens nem quer pôr outras pessoas sob esse risco”, acrescenta a dupla Michael/Barbara, fazendo coro ao discurso de Marc: “O tema central que permeiaSolace’ é a confiança. A confiança pode assumir inúmeras formas diferentes. Em quem nós realmente confiamos? Você confia em si mesmo? Todas as pessoas têm questões relacionadas à confiança, pois em algum momento da vida, todos nós já fomos traídos”, complementa. Tematizações estas, que se aplicam ao curioso – e complicado – nome adotado pelos produtores: “O título veio originalmente de um conto de Ian Fleming (o criador de 007) e significava, naquele contexto,  um relacionamento que não podia ser recuperado, a menos que haja uma ‘Quantum of Solace’ entre ambas as partes. ‘Quantum’ significa ‘uma grande quantidade’ e ‘Solace’ significa ‘consolo’ ou ‘conforto’. No nosso caso, ele quer dizer que Bond está procurando uma ‘porção de consolo’ depois de suas desilusões, e ‘Quantum’, por acaso, também é o nome da organização criminosa do filme”, explanam ambos, em uníssono.

E falando em criminosos, obviamente, 007 luta contra bandidos igualmente contemporâneos. “Infelizmente, hoje em dia, é bem mais difícil identificarmos quem são os vilões nas nossas vidas, e é exatamente isso que estamos buscando mostrar”, esclarece Mathieu Amalric, escalado para viver o arquiinimigo da vez. “Além disso, eu gosto da aversão por sangue de meu personagem. A violência é abstrata e isso também tem a ver com o mundo de hoje, onde se pode fazer tudo por intermédio dos computadores. Desde ‘007 Cassino Royale’, os responsáveis mudaram um pouco a textura desses filmes, procurando algo que tenha mais relação com os tempos atuais e representem melhor a realidade em que vivemos”, relata Amalric, obviamente feliz com os aspectos vanguardistas do produto. “Eu achava que os primeiros episódios dos anos 60 (com Sean Connery no papel de Bond) estavam à frente do seu tempo em termos de visual, e isso me serviu de inspiração. Assim, percebi que havia espaço para se criar um novo estilo para a franquia”, exalta Forster, unindo raízes clássicas & modernas.

“O próprio MI6 se sofisticou substancialmente. Tudo o que preciso dizer é que não creio que o MI6 disponha de recursos para se transformar em nosso MI6. Duvido que eles tenham condições para fazer isso. É algo sensacional, nem usamos mais telefones”, incrementa Judi Dench, regressando (novamente) no papel de ‘M’, a matriarca dos agentes com “liberdade para matar”. Todavia, estas situações técnicas já eram esperadas. “Um filme de Bond é uma gigantesca peça de maquinaria que, para ser posta em funcionamento, requer um empenho extraordinário”, antepara Graig, já se acostumando aos – fortuitos – desígnios enquanto “astro da companhia”: “São tantas as variáveis num filme como este. De certa maneira, tudo ainda é novidade pra mim, mas você precisa agir com segurança e tentar conseguir o maior tempo possível para ensaiar/treinar. Com isso, esperamos agregar ainda mais valor ao resultado final”, entrega Daniel.

“Pensar em dirigir um longa de ação foi muito mais assustador do que, de fato, dirigi-lo. Nestas super produções, você conta com um excelente sistema de apoio e uma equipe com bastante experiência no gênero. Planejar e escrever um trama recheada de ação é mais difícil do que filmá-lo, de fato. O segredo desta aventura está na sua narrativa, porque filmar cenas de ação pela ação (em si) é desinteressante – além de não contribui em nada”, especifica Forster, assumindo completamente a cadeira de direção deste importante 007, uma realização que se destaca até pelo recorde de locações – internacionais – utilizadas num único “Bond Movie” (no total, 7 países foram visitados durante as gravações de “Quantum of Solace”). “Lugares exóticos são uma marca registrada na cinematografia de James Bond. Elas são cruciais no sentido de ajudar a transportar o público para um mundo diferente. Nós também precisávamos encontrar locações que refletissem o estado psicológico do protagonista. Por exemplo, um dos motivos que me fez escolher o deserto foi porque representa a solidão e o isolamento – figurativos ao estado de espírito de Bond”, recorda o cineasta, para a satisfação de seu comandado: “Estou incrivelmente excitado com o que fizemos – e impressionado com o volume de realizações que conseguimos. Usamos diversas locações e o filme tem um visual deslumbrante. Acho que criamos algo realmente especial. Ou melhor: sei que criamos algo realmente especial”, atiça Daniel Graig – vulgo James, James Bond, lógico.

Fonte: Sony Pictures

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