Sessão de Cinema – Dois irmãos que definitivamente não cresceram

FILME: Quase Irmãos (Step Brothers) EUA, 2008 – Comédia – 95 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

Famílias disfuncionais são caracterizações freqüentes nos cinemas, principalmente nas comédias rasgadas (e/ou negras). Balaio freqüentemente recheado de atrações completamente “absurdas”, estas produções sempre exploram situações inusitadas, utilizando-se de personagens principais condizentes (obviamente) e aficionadamente “diferenciados”. Contudo, tais caricaturas cinematográficas (por vezes, exacerbadas) só se tornam críveis quando temos atores capacitados e preparados para trabalhar neste limiar de exageros dramatúrgicos. Onde uma pequena diferença pode separar uma risada gostosa do embaraço sentido pelos expectadores nas situações – vergonhosamente – incômodas.

“Quase Irmãos” segue exatamente tal gênero, contrapondo notadamente os dois enteados descritos logo no título. Ambos estão na casa dos 40 e agem feito “crianças adultas”. Uma ambígua característica (que mistura sexualidade adolescente com comodismo inocente) que acabará exacerbada quando o pai viúvo de um resolver (prontamente) se casar com a mãe viúva do outro, obrigando-os, assim, a dividirem o mesmo teto, a revelia dos citados – até então, meros “meninos mimados”, ou seja, reizinhos em seus castelos particulares.

Descontentamento mútuo que ficará evidente ao longo deste problemático cotidiano “forçado”. Abusando de brincadeiras desmedidas, o filme recorre clamorosamente aos interpretes (exclusivamente) para dotar suas passagens de momentos verdadeiramente engraçados. Coisa difícil se formos nos ater (unicamente) ao mau-gosto das gags que compõem o roteiro (como os testículos esfregados – de forma birrenta e desdenhosa – na preciosa bateria “intocável”). Vividos por parceiros de carreiras distintas, os “quase-irmãos” ganharam uma curiosa uniformidade na pele dos co-protagonistas Will Ferrell e John C. Reilly (que – inclusive – dividiram o ótimo “Ricky Bobby – A Toda Velocidade”, recentemente). Cujo timing cômico “próprio e indivisível” se complementa de maneira elogiosa – numa amálgama bem encaixada de talentos (quase) opostos.

Will, um comediante nativo (do sucesso “Um Duende Em Nova York”) sempre soube lidar com as sutilezas típicas da “química forçada” comuns a comédia (no estilo “Irmão Gêmeos” com Arnold Schwarzenegger e Danny De Vito). Todavia, Reilly, acostumado a dramatizações que vão além das piadas (vide “Magnólia” e “Gangues de Nova York”), demonstra (aqui) uma versatilidade incrível – já implícita em sua merecida indicação ao Oscar (por “Chicago” em 2003). Travando um lídimo duelo de performances “emburradas”, Ferrel/John se misturam (inclusive na aparência) ao ponto de dividirem a presente atração por igual, compondo personas de comportamentos similares (redundância aludida pelas máscaras de Wookies que compartilham em determinado momento), apesar das “personalidades geniosas” que tendem a dividi-los no início dos “confrontos por espaço”. Um relacionamento, portanto, tumultuado pelas impertinências das típicas “briguinhas” caseiras, cegando-os do quanto eles são idênticos e estimulando conflitos através dos “altos e baixos” que mimetizam o ritmo de “quedas e subidos” da própria narrativa, uma montanha russa de deixas normalmente irregulares (sob a batuta do diretor Adam McKay).

Redundando num produto funcional o suficiente para agradar (relativamente) o público, sobretudo, nas sessões formadas majoritariamente por “crianças crescidas” (especialmente no caso dos meninos acima dos 18). Estes, poderão se identificar razoavelmente com o conteúdo, voltado para destrinchar os aspectos “deprimentes” (aka encantadores) daqueles que optaram por “nunca crescer” – independente das criticas ou das responsabilidades assumidas (inerentemente) ao envelhecer. Decisão proscrita alegoricamente pelo ícone “Peter Pan”, que cuidava dos “garotos perdidos” sem endurecer o espírito. Uma “rebeldia” defendida vigorosamente em “Quase Irmãos”, notadamente, uma conjuntura de “meio-irmãos” que comungam desta incurável “síndrome da juventude eterna”.

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