Sessão de Cinema – Quando corpo e mente divergem fatalmente

FILME: Fatal (Elegy) EUA, 2008 – Drama/Romance – 108 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

Baseado no romance “O Animal Agonizante” de Philip Roth (autor do recentemente adaptado “Revelações”), este “Fatal” seria corretamente apelidado se tivesse adotado o título original do livro, uma clara referência ao personagem de Ben Kingsley, o próprio “animal agonizante” descrito acima. Sentindo na carne os efeitos da velhice chegando – ao observar que seu corpo começa a destoar dos fartos pensamentos hedonistas que ainda freqüentam sua cabeça. Interpretando um respeitado professor universitário que sempre foi arredio aos relacionamentos sérios, Kingsley (de “Ghandi”) abre o longa comentando sobre as origens libertinas da sexualidade (e posterior moderno recato) na sociedade norte-americana, desferindo racionalmente muito dos desejos primitivos que o impulsionam a se apaixonar por Penélope Cruz, no papel de uma jovem – e charmosa – estudante. Apesar das flagrantes diferenças de idades que os separam, eles parecem exercer um fascínio enorme sobre o outro, não demorando para (enfim) se entregarem numa arrebatadora paixão – mútua.

Dirigido por Isabel Coixet (de “A Vida Secreta das Palavras”) e roteirizado por Nicholas Meyer (conhecido pelos trabalhos em diversos “Jornada nas Estrelas”), a película forja uma versão maleável do conto de Philip, dosando a sensualidade inerente ao produto com uma elegância romanceada (cheia de referências literárias, especialidade de Meyer) inexistente no caráter textual da persona encarnada por Ben. Que empresta seu charme pessoal para compor uma figura mais simpática, mesmo diante de tantos problemas e/ou pensamentos pecaminosos. Sempre discutidos abertamente (sem vergonha) com seu amigo (bem vivido por Dennis Hopper), levantando supla-diálogos conciliatórios (voltados para os expectadores) que comentam/complementam os polêmicos temas retratados pelo longa-metragem. Vide a citada dualidade entre envelhecer (principalmente no sentido de amadurecer) em confronto ao primitivismo dos prazeres carnais, uma barreira que atrapalhará o desenrolar da difícil relação entre Cruz e Kingsley (nestes termos, constantemente invertendo as posições entre “experiente” e “inexperiente”). O casal demonstra um claro receio quanto a real “posição” que ocupam no coração do amado – cada um, temendo que nada possam significar além de uma (simples) aventura sexual passageira.

Contudo, esta semelhança só evidencia o quanto Penélope destoa do parceiro cênico, incumbida de uma moça jovial, elegante e inocente, ela não consegue transmitir a “imagem correta” (talvez por estarmos acostumados a vê-la em condições completamente contrárias). Tampouco parece confortável nos parâmetros comportamentais estilo “menina certinha” (filmada por Coixet propositadamente de uma forma acentuadamente voyerista), aparentando exalar uma “experiência” e uma “incorreção” (naturais) acima das configuradas pela sua contraparte fictícia (compatível unicamente quanto à “beleza” que comungam). Erro de escalação que (todavia) em nada depõe contra seu talento artístico, algo bem visível/acentuado nos lacrimejantes momentos finais da fita. Doravante prejudicar sensivelmente a “veracidade” da co-relação entre os protagonistas, perdendo credibilidade diante desta “inadequação” elementar.

Enfraquecendo um dos principais fatores que conectam estes amantes “quimicamente”: a “juventude” (geral) tão acentuada (na garota) e acariciada pelas mãos enrugadas do (fragilizado) “animal moribundo” lá do livro. Este, esfacelando aos poucos – literalmente – diante de uma rapariga tão “viva”. E desejável. Um equívoco – gravíssimo – dentro do gênero, somente relativizado pela grata presença de Kingsley, mergulhando conscientemente na beligerante psique de seu “Don Juan acima dos 50” (com a barriguinha “sarada” deste ilustre senhorio), extraindo elementos criticamente compulsivos (tipo sua relação carnal com a atriz Patrícia Clarkson) que compensam as limitações da trama (amenizada em comparação ao best-seller que lhe empresta a história).

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