Maratona de Animes Vol. XI – Sessão DVD’s: “Paprika”

FILME: Paprika (Paprika) Japão, 2007 – Animação/Ficção Científica  – 90 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

Está aí uma resenha extremamente difícil de escrever. “Paprika” é uma experiência tão visual, mas tão visual, que tentar explicá-lo através de palavras seria um ato descuidado que, no final das contas, jamais faria justiça ao prazer de vê-lo com os próprios olhos. Principalmente sabendo que essa estupenda película se baseia no idolatrado romance homônimo de Yasutaka Tsutsui, lançado no Japão com – estrondoso – sucesso em 1993.

E cujo conteúdo de ilações verbais (sobre o universo dos sonhos) quase o impediram de ganhar uma versão pros cinemas, tamanha era a dificuldade de transformar em imagens seu contexto metafísico, recheado de subjetivismos e figurações – que saíram diretamente do subconsciente de seu elogiado autor, que apesar dos pesares, estava esperançoso em levar sua cria para os cinemas… Ainda bem que o diretor Satoshi Kon (dos espetaculares “Tokyo Godfathers”, “Perfect Blue” e “Millennium Actress”) provou ser esperto o suficiente para providencial uma adaptação menos literal, mantendo o espírito experimental do conto, contudo, reconstruindo-o com algumas das narrativas cinematográficas mais imagéticas de sua premiada filmografia.

Na trama, ou no que é possível traduzir textualmente dela, um invento primorosos se mostra capaz de adentrar na psique humana durante o sono, engenho que logo cai em mãos erradas, desencadeando uma seqüência de eventos capazes de quebrar a linha entre a realidade dos acordados e a fantasia dos dormentes. Abusando da qualidade técnica da Madhouse, um estúdio nipônico extremamente respeitado no ramo, “Paprika” torce, espreme e suga diversos conceitos dúbios em prol de uma sessão sensorialmente psicodélica, dotada dos mesmos simbolismos que construímos durante o sono, despejando-os convidativamente. Adentrando, justamente, nestes parâmetros incertos e tenebrosos da imaginação humana, encontramos a personagem titulo, a única que transita entre os “universos” da consciência/inconsciência livremente, pelo menos, até “certa” tecnologia ser roubada e usada em atos de terrorismo.

Cheia de peculiaridades, a moça, Paprika é um resquício de “personalidade sem pudores” escondida na mente de sua contraparte cientista, mais recatada e menos indulgente do que a garota. Tal integração entre ambas é um dos mistérios do filme, além de ser uma das “idéias” mais fortemente dependentes das ilustrações que preenchem o longa-metragem com a coerência que lhe falta, aparentemente, nas sinopses ou falas literais. Neste projeto, tudo funciona melhor ao ser acompanhado dos desenhos correspondentes, traçados numa mescla deleitosa entre computação gráfica e animação tradicional, com impecável requinte e exacerbação cromática (notem a riqueza de detalhes, maravilhosos). Satoshi trabalha cada enquadramento com afinco, normalmente contando mais do que poderíamos extrair imediatamente, transpassando as aparências superficiais das situações, sempre mostradas casualmente.

Kon é um mestre da animação, realizando aqui uma das produções mais ousadas de suas empreitadas. Com esmero, o cineasta vai tecendo uma rede de co-relações e metáforas (algumas delas, banhadas em paralelismos com a própria Sétima Arte, numa metalinguagem que despertará o imediato interesse dos cinéfilos), evocando um surrealismo que se comunica de maneira contundente e transcendental. Nas mais diversas formas ou variantes possíveis, direta e/ou subliminarmente. Inclusive através da absurda trilha sonora composta por Susumu Hirasawa, em total sincronia com os propositais desacordes exigidos pelo erradico produto – uma ficção cientifica invadida por mistérios e perguntas secretas, que exigiriam diversos debates e sessões de “Paprika” para serem esmiuçadas. Ou, quem sabe ainda, virtualmente entendidas.

Longe se ser entretenimento fácil, esta peça escancara a falta de limites dentro do gênero, abusando do potencial que preencheu cada folha em branco usada para dar vida ao livro de Tsutsui. Unindo gracejos estilísticos com a maneira inteligente com que sua engenhosa dicotomia fora engendrada. Para delírio, em qualquer sentido, dos fãs das animações adultas e visualmente perspicazes.

Extras

O material que acompanha “Paprika” talvez seja o melhor entre os DVD’s do gênero. Temos comentário de áudio com o diretor, making off, especial sobre as filosofias refletidas no longa, matérias sobre os processos técnicos envolvendo animações e efeitos especiais, tudo legendado em português, nos conformes. Fora os trailers, que jamais poderiam ficar de fora… Ou seja, se trata de uma compilação digna do filme que representa. Ah, só para constar, a fita também já saiu no Brasil em Blu-ray, trazendo os mesmos extras desta excelente versão – plus opção de vê-lo em alta definição e preço “de capa” salgado, óbvio.

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