Reciclando o futuro dos desenhos animados

FILME: Wall-E (Wall-E) EUA, 2008 – Animação/Ficção Científica – 103 min. Matéria de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

“Wall-E”, o nono longa de animação da Pixar, acrescenta bastante aos números positivos da empresa, considerada (com razão) “marca-sinônimo puro” destas produções em “computação gráfica” – desde sua fundação, nos anos 80. Dona, inclusive, do primeiro longa-metragem inteiramente consumado com técnicas 3D (no clássico “Toy Story”), a casa – hoje pertencente à mega-corporação Disney – se estabeleceu como uma pioneira na área, acumulando sucessos (que somam a bagatela de US$ 4.3 bilhões em arrecadação) e – enorme – prestígio através dos tempos. Garantindo, logo nos passos iniciais, um futuro brilhante na cinematografia mundial, caminho este, traçado num fátidico-profético almoço entre alguns de seus principais “fundadores”. Reza a lenda (real o suficiente para galgar o status de “mito”) que os precursores, Andrew Stanton, John Lasseter, Pete Docter e Joe Ranft (infelizmente, já falecido), ainda em meio às aventuras de Buzz Lightyear, rascunharam ali mesmo, acompanhados por comidas e bebidas (em 1994), várias das idéias que posteriormente se transformariam no vistoso catálogo do estúdio.

“Dentre as coisas de que me lembro saindo de lá estava a idéia de um robô abandonado na Terra”, confirma Stanton, diretor consagrado por “Procurando Nemo” (premiado no Oscar) e igualmente responsável pela presente empreitada da Pixar. “A gente nem tinha uma trama. Era um personagem pequenino, como se fosse um Robinson Crusoé – e cogitamos: ‘e se a humanidade precisasse abandonar o planeta e alguém se esquecesse de desligar o último robô? E se ele não soubesse que poderia parar de fazer o que estava fazendo?’”, relembra. No decorrer dos trabalhos, os rascunhos começaram a se desenvolver, sequencialmente, um após o outro. Até chegarem ao formato atual do citado autômato abandonado. “Comecei a pensar nele trabalhando sozinho todos os dias, compactando os detritos deixados na Terra”, detalha o cineasta. “Me interessei muito pela noção de que a coisa mais humana deixada no universo poderia ser uma máquina. Essa foi a centelha. E nossa jornada foi bem longa”, ele conta. Longos 14 anos depois, “Wall-E” chega aos cinemas – já no século XXI, numa história ambientada séculos depois – contendo, em seu cerne, muitas das mesmas características que fizeram a equipe apostar (imediatamente) na sua viabilidade cinematográfica.

“Fiquei fascinado com a solidão que essa situação de Wall-E evocavava e a empatia imediata que sentíamos pelo personagem. Gastamos uma grande parte do tempo nos nossos filmes tentando tornar nossos protagonistas simpáticos para que você queira torcer por eles”, relata Andrew, para (então) prosseguir: “Logo percebi que o oposto da solidão é o amor ou estar com alguém. E eu fiquei imediatamente entusiasmado e seduzido pela idéia de uma máquina se apaixonar por outra”, nos conta, revelando o surgimento motriz deste “elemento” tão incomum para o gênero “desenho digital” – historicamente pouco afeito a temas românticos. Uma inovação, longe de cair na mesmice das fórmulas prontas, aliás, condizente com os ideais lúdicos da criativa Pixar, sempre presenteando o (surpreso) expectador com projetos diferentes e pluralistas. “Este filme é uma mistura de gêneros. É uma história de amor, é um filme de ficção científica, é uma comédia, é uma comédia romântica”, inúmera Jim Morris, um dos produtores de “Wall-E”, reafirmando o tom universal deste produto primoroso.

“O importante é saber tocar as pessoas por intermédio da animação”, complementa o chefão Ed Catmull, presidente da Walt Disney/Pixar Animation Studios. Numa lógica compartilhada por todos os seus subalternos. “Não queríamos ter no escopo robôs desenhados com traços humanos – pernas, cabeça e olhos, e que falassem como seres humanos. Nós queríamos pegar objetos que em geral não são associados com características humanas e ver o quanto extrairíamos deles através do desenho e da animação”, ampara Jim Reardon, experiente diretor de história e (também) co-roteirista. “Nós queríamos que o público acreditasse que estavam vendo uma máquina que ganhou vida. Quanto mais acreditassem se tratar de uma máquina, mais interessante a história se torna”, pondera Stanton. Entretanto, para chegar ao design definitivo destes “construtos metálicos” (condizentemente), foram necessários certos cuidados excepcionais. Obrigando visitas a fábricas de reciclagem e estudos “El Vivo” dos engenhos robóticos trazidos até o estúdio – para a alegria de cada integrante do grupo, formado por pessoas atraídas (naturalmente) pelas tais engenhocas. “A vontade de dar vida a algum objeto inanimado é inata nos animadores”, entrega o importante filmmaker. “Foi um grande desafio intelectual descobrir como convencer do ponto de vista narrativo e, mesmo assim, passar a sensação de que é uma máquina atuando dentro das suas limitações de projeto e fabricação. Aqui, neste ‘Wall-E’, os animadores estão realmente no melhor da sua forma, comunicando emoções e pensamentos complexos em poucas palavras”, finaliza.

Neste caso, especificamente, “poucas palavras” não significam – necessariamente – ausência absoluta de sons, pelo contrário, os efeitos sonoros assumiriam rapidamente uma função vital na experiência emocional propiciada por esta obra recheada de figuras robotizadas. “Na vida real, quando os personagens não falam – um bebê, um animal de estimação – as pessoas tendem a projetar neles suas próprias crenças emocionais: ‘Acho que ele está triste’, ‘ela gostou de mim’ – é irresistível para o público”, deleita-se Stanton, convencido do quanto seria importante mimetizar aqui estas mesmas sensações. Sobrou, então, para o veterano Ben Burt (aproveitando uma vasta bagagem acumulada na criação da sonoplastia de “Star War”) desenvolver um linguajar forrado pelos peculiares “bips” das “estrelas” automatizadas. “As vozes não poderiam soar apenas como uma máquina sem personalidade, ou como um ator escondido atrás de uma cortina imitando um robô. Foi um equilíbrio estranho entre soar como uma máquina, mas ainda ter o afeto e a inteligência – alma, eu diria – que um ser humano tem”, comenta Burt, um dos engenheiros “santificados” em Hollywood. “Ben é único no que faz. Ele é um grande mestre do desenho de som”, concorda o “fã-autor” de “Wall-E”.

“Uma das grandes coisas da Pixar é que nós criamos longas de animação que também têm elementos de filmes de efeitos especiais e live-action. Criamos nosso próprio mundo e o produzimos do zero”, explica Ralph Eggleston, encarregado como “supervisor de produção”. “É comum vermos animações que realmente parecem gravadas em algum computador. Nós queríamos que o nosso parecesse filmado por cinegrafistas de verdade com câmeras reais, que tivessem ido àqueles locais e visto o que nós estávamos vendo”, palpita Norris. “Foi nossa produção mais desafiadora do ponto de vista artístico”, comemora Jim. Obviamente, por se tratar de uma ficção-científica, os produtores deixaram se influenciar – na hora de definir suas características “realistas” – em grandes títulos da Sétima Arte. “Filmes como ‘2001: Uma Odisséia no Espaço’, ‘Star Wars’, ‘Alien’ e ‘Contatos Imediatos’ – todos tinham um visual e um clima que nos transportavam de verdade para outra dimensão e eu realmente acreditava que aqueles mundos existiam”, exemplifica Stanton. “Daí, fizemos ajustes internos e desenvolvemos nosso software para que nossas câmeras se parecessem com as câmeras Panavision 70mm usadas em muitos destes ícones sci-fi da década de 70”, entrega.

“Há um quê de imperfeição no visual final do filme que contribui para a sua verossimilhança”, chuta Jim, “Nosso ponto de vista para o visual não era como será o futuro. E sim, como ele poderia ser – o que é bem mais interessante. Era isso que queríamos passar”, assiste Ralph, cujos “traços futurologistas” foram inspirados em diversos conceitos futuristas bolados pela própria NASA – durante a Corrida Espacial. “Eu fiquei muito orgulhoso de fazer parte da origem e criação de ‘Toy Story’”, cita Andrew. “Porque acho que o tom e a maneira com que foi feita sua narrativa quebraram inúmeras convenções. E ainda acho que podemos continuar extrapolando limites. Até antes de saber que este projeto iria se chamar ‘Wall-E’, eu sabia que era mais um passo na ruptura de novos padrões”, confessa o mesmo. “Eu me orgulho muito de ter tido a chance de filmá-lo e vê-lo à altura das minhas expectativas”, finaliza um dos “quatro patronos” da Pixar – não por menos, “feliz” com os resultados (póstumos) daquela “inesquecível” reunião original do 12h – repleta de “claques” da animação moderna.

Fonte: Walt Disney Pictures

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Matérias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s