A reencarnação do terror brasileiro

FILME: A Encarnação do Demônio (Idem) Brasil, 2008 – Terror – 90 min. Matéria de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

Divulgação

Todo cinéfilo que se preze conhece o Zé do Caixão. Ou deveria conhecê-lo. Mesmo de só ouvir falar, já que suas películas são “quinquilharias empoeiradas” pro mercado. Situação ingrata que está prestes a mudar neste vindouro lançamento de “A Encarnação do Demônio”, nova película de José Mojica Marins, personificador e criador de um dos “nomes” mais representativos dentro da Sétima Arte brasileira. Além de consagrado mundialmente, inclusive, fazendo seu indissociável “protagonista título” ganhar uma justíssima “renomeação” internacional. Mojica imaginou “Coffin Joe” (como acabou conhecido nos EUA) partindo de um pesadelo pessoal onde a figura concebida por ele (ou seja, ele mesmo) se revelava através de um pesado sonho, da qual o cineasta aproveitou para desenvolver “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (de 1964), primeiro filme de uma (até então) incompleta trilogia que se encerrará, justamente, nesta – ressuscitada – empreitada. Algo só possível após o cultuado idealizador aceitar uma valorosa parceria proposta pelo produtor Paulo Sacramento – em conjunto com Dennison Ramalho, roteirista da obra.

“Trata-se da volta do mestre do terror e será um grande evento pra cinematografia nacional”, apregoa Sacramento, um dos articuladores chefes da “força tarefa” responsável por finalizar um conto “amaldiçoadamente” estagnado há tantas décadas. “Foram anos de luta tentando viabilizar ‘Encarnação do Demônio’”, confirma o consagrado tutor/diretor, que havia escrito o tratamento original (do futuro produto) no longínquo 1966. De lá para cá, a história foi sendo reescrita constantemente, dando seqüência a diversas tentativas frustradas de fazê-lo ganhar às telonas. Evento (póstumo) só possível 40 anos depois de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), o segundo capítulo desta saga macabra, chegar aos cinemas. “Ao longo de seus 50 anos de cinematografia, ele fez mais de 30 filmes e nossa admiração por todo esse histórico pesou muito para decidirmos tocar esse difícil projeto ao lado dele”, complementa Sacramento, atento as necessidades atemporais de fechar o ciclo deste “símbolo do horror” verde-amarelo. “Nosso desafio foi agrupar as pessoas certas para que o Mojica pudesse ter este suporte para concluí-lo, finalmente”, conta o (igualmente) produtor Caio Gullane.

“Tínhamos o compromisso de dar assistência à criatividade de Mojica sem trair o estilo dele”, reafirma Fabiano Gullane, outro produtor do citado longa-metragem. “Tive o controle total da filmagem para que as coisas pudessem ser feitas de acordo com minha linguagem”, reitera José Marins, para alívio dos fãs antigos, estes, preocupados com a manutenção do estilo autoral apreciado nas peças anteriores de Zé do Caixão. “O universo dele é retratado desde o princípio do filme, integralmente, com uma abertura em animação com veias e órgãos em formação”, atiça o cineasta, valorizando uma produção revitalizada pelos padrões produtivos atuais. “Os produtores providenciaram tudo para que tivéssemos equipamentos e equipe de primeira linha”, revela José Roberto Eliezer, diretor de fotografia. “O filme é muito dinâmico, com muitos cortes nas tomadas de ação. Os enquadramentos têm uma levada de HQ, com ângulos pouco comuns, contudo, muito adequado ao tema”, fala o fotógrafo, citando algumas das recauchutagens obrigatórias pra iniciativa, enfim, deixar a prancheta e encarar um público – possivelmente – diferente (em parte) das sessões “alternativas” dos anos 60.

Algo que em nenhum momento depõe contra as qualidades – já clássicas para gerações inteiras – deste ícone tupiniquim. “Utilizamos uma série de truques e recursos criativos para transformar em realidade o que o onírico roteiro exigia. Apesar do orçamento apertado, tudo foi desenvolvido adequadamente, mas dentro de um patamar muito acima do que o Mojica já havia feito anteriormente” acrescenta Cássio Amarante, diretor de arte da presente “obra-prima”, na opinião do próprio Mojica: “Considero este material a ‘Bíblia do Terror’ da América Latina”, ele diz confiante. “Esta história reúne todos os elementos que os amantes do gênero apreciam, num tenebroso caminho entre espectros, torturas e cenas violentas”, conta o autor. “Acredito que vamos fazer muito barulho”, finaliza – favoravelmente amparado pelos 3800 litros de sangue (falso, logicamente) utilizados ao longo da projeção, sem contar o coro dizendo “Satanás” ao contrário, ou os diversos ratos, aranhas e baratas utilizadas no processo. “O resultado é realmente impressionante, um tipo de experiência minuciosa, que exige paciência e disposição”, diz André Kapel, supervisor escalado para cuidar dos efeitos visuais.

Porém, para lapidar tão almejada “excelência cinematográfica”, era preciso construir um caminho – árduo – em que o episódio final suplantasse (comercialmente) e homenageasse os sucessos antecessores, respeitando naturalmente, os feitos mortais do “coveiro assassino” mais famoso do “Trash” brazuka. “Zé do Caixão sempre foi um sádico e em ‘Encarnação do Demônio’ isso acaba muito bem retratado”, prontifica a dizer seu interprete. “Ele é como uma cobra, quem passa por ele é picado, quem atrapalha o destino dele é morto”, sintetiza, para depois, fazer um adendo importante: “Retrato um cara humano, perseguido pelos fantasmas das pessoas que acabou matando – o que significa que ele tem consciência do que fez. Em ‘À Meia-Noite’, eu já mostrava este remorso, nas (respectivas) alucinações com os espectros de suas vítimas”, relembra, demonstrando (claramente) que o tempo – encarcerado – sequer abalou sua persona fictícia. “Outro desafio foi modificar uma seqüência de ‘Encarnarei no Teu Cadáver’. Na época, a censura obrigou Mojica a inserir frases em off que davam à cena uma conotação de arrependimento e conversão plena do personagem. Refizemos esta parte de acordo com a intenção original, de mantê-lo com suas sagradas convicções até o fim”, revela Eliezer, elaborando e inserindo cuidadosamente estes – lúdicos – flashbacks.

Assim, Zé do Caixão regressa (felizmente) mantendo as boas-velhas características de outrora – só que evidentemente mais velho, após uma longa estada em manicômios (antes do “despertar” na cosmopolita “cidade grande”) – sempre matutando uma forma de concretizar seus planos malévolos. “O personagem acredita na descendência e busca uma mulher que pense como ele. Quando encontrar uma parceira ideal, para gerar o herdeiro perfeito, virará imortal, pois sua ideologia será herdada por seu filho, imortalizando-se por meio da hereditariedade do sangue”, explica o realizador – de unhas enormes – o mesmo, que já havia imortalizado sua criatura nas grandes telas e agora tenta repetir o feito (dentro) da ficção sonhada por ele. Porém, ainda não concretizada totalmente. “Estarei plenamente realizado somente após viajar pelo Brasil e exterior e puder averiguar pessoalmente se foi realmente o filmão que meu público estava esperando”, confessa José Marins, cujo ótimo currículo lhe imputa 10 milhões de expectadores e uma justa retrospectiva no importante Sundance Film Festival, o principal encontro sobre cinema “independente” do mundo. Meritoriamente.

Fonte: Fox Films

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