Programado para matar

FILME: Rambo IV (John Rambo) EUA, 2008 – Ação – 91 min. Resenha de Carlos Campos para o site “Claquete Virtual”, 2008.

DivulgaçãoDepois do retorno bem-sucedido de Rocky Balboa em 2005, era uma questão de tempo para o sessentão Sylvester Stallone (astro, escritor e diretor destas novas continuações) ressuscitar outro de seus personagens mais importantes e queridos, John Rambo. O ex-boina verde passou pelo inferno (alvejado por balas marcantes) em três filmes populares nos anos 80 – enfrentando desde o preconceito ao visitar sua própria terra natal (traumas póstumos do Vietnã) até se aventurando contra o avanço comunista no Afeganistão. Mas se na película do “garanhão italiano” o clima era de nostalgia (numa bela – saudável – homenagem ao longa original), a nova produção escancara os clichês típicos com um (único) propósito de colocar o soldado “programado para matar” livre para fazer o que sabe: assassinar como ninguém. Da forma mais crua e nauseante possível.

Desaconselhado para os avessos a cenas (fortemente) violentas, “Rambo IV” aposta na pesada artilharia da carnificina. Sem melindre algum. Inclusive, mostrando o lado mais impiedoso tanto de mocinhos quanto de bandidos, por igual. Stallone até arrisca discutir (em alguns diálogos sortidos) os rumos sempre periclitantes do belicismo, contudo, tudo parece festim se comparado ao preparo desprendido pro chumbo comer grosso. Violentamente. Boa parte da trama se ocupa a nos mostrar as atrocidades da guerra-civil na Birmânia, hoje chamada de Mianmar, fato aparentemente não notado pelos realizadores. Equívocos geográficos à parte, cada cena do desumano confronto parece ser usada paliativamente para justificar as ações de Rambo – tão mortíferas quanto às armas empregadas pelo (sempre) vil-covarde inimigo.

John vai fazendo uma escalada crescente de investidas hostis, desaguando (no fim) numa ira desmedida (inacreditavelmente animalesca) no clímax da aventura – quando sua presença é necessária para salvar alguns missionários aprisionados pelas milícias locais. São 30 e tantos minutos de sangue voando, corpos decapitados e selvageria anacronicamente visceral jamais vista – não com tanta técnica/efeitos-especiais realistas. Transformando o quarto episódio da série no mais sanguinolento da franquia – ao ponto de conseguir transformar o desembarque das tropas “Spielbergianas” na Normandia da II Guerra Mundial numa limpa batalha de gentlemens. Porém, existem dois pontos conflitantes nesta apoteótica matança…

Transformada na melhor qualidade e também no maior defeito deste título. Enquanto tamanha sucessão de cadáveres funciona a toda potência para os viciados no gênero, tal derramamento gratuito de vidas acaba embrulhando o estômago de muitos espectadores casuais. Pegos desprevenidos demais para aceitar esta elevada-rasgada exacerbação masoquista. Pois, independente do assustador (real) desrespeito aos direitos humanos e de qualquer iniciativa cinematográfica para tocar nesta delicada ferida, sabemos que estamos diante de um exemplar cuja única pretensão se resume a fazer Rambo sujar as mãos novamente. Cravando sua faca na vítima atocaiada. Simplesmente para contentar as massas. Nada mais. Daí o repúdio (realmente aceitável) para tamanha sede de destruição. Explícita.

Como colocado-evidenciado pelo emérito soldado (de faixa vermelha na testa) em sua apologia à luta fratricida, dita na voz torta de Sylvester em diversas falas ao estilo “sem armas nada vai mudar”. O citado diretor até funciona como um bom comandante, criando boas tomadas, impondo ritmo ou garantindo malandramente um experto flashback (disfarçado de sonho) para satisfazer os fãs assíduos de Rambo. Mesmo assim, parece incapaz de criar uma narrativa integralmente inserida no contexto (mal-usado) do genocídio étnico. Neste caso, utilizado apenas como desculpa (esfarrapada) para colocar uma metralhadora poderosa ao sedutor alcance do (combalido) combatente… Da paz – acreditem

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