Lapsos de uma vida interrompida

 FILME: Desejo e Reparação (Atonement) EUA, 2007 – Drama/Romance – 130 min.

Divulgação

Às vezes as coisas não são como elas aparentam ser. É batendo nesta tecla que o diretor Joe Wright aliou-se novamente a Keira Knightley (eles trabalharam juntos no ótimo “Orgulho e Preconceito”), desta vez para falar sobre os (profundos) desejos de reparação. Principalmente, dos equívocos causados por uma interpretação danosamente errônea. Como a cometida pela irmã caçula da personagem fumante-compulsiva de Keira, gerando um mal-entendido responsável por separar o casal romântico da trama. A correlação entre as palavras título mexem profundamente – inclusive – com o público, principalmente se os espectadores forem atingidos no âmago de sua própria vontade de (querer) regressar e consertar equívocos passados – gerando um drama potencialmente capaz de trazer à tona ressentimentos (pessoais), transbordando-os de dentro para fora das telas.

O poder (fundamental) dos “termos” ícones em “Desejo e Reparação” denotam (inexoravelmente) um pulgente traço literário-cinematográfico (adaptado do livro homônimo escrito por Ian McEwan), esmiuçado/representado até na figura da citada irmãzinha menor, escritora precoce aos 13 anos de idade, interpretada nesta fase pela novata Saoirse Ronan, numa atuação impecável – principalmente para alguém tão jovem. PS: A moça ganha outras duas importantes interpretes enquanto envelhece (Romola Garai e posteriormente Vanessa Redgrave, ambas maravilhosas, mantendo o alto nível de atuação, assim como faz o restante do afinadíssimo elenco). Estas infusões de evidente textualidade junto às imagens (verborrágicas) revelam uma teatralidade atípica, compondo uma narrativa de variadas perspectivas que avançam/retroagem no tempo com enorme desenvoltura. Deslizando por – interessantes – caminhos editoriais pouco explorados no cinema mais comercial.

Estes olhares distintos – entre as diferentes figuras – acabam acentuadas (elementarmente) pelo uso efetivo dos efeitos sonoros, agregando ao lindo (L-I-N-D-O!) score musical pequenas notas, algumas verdadeiramente curiosas, como o constante som de “datilografia” empregado para pontuar certas passagens consideradas “chave”. Como se o longa-metragem estivesse sendo escrito (metalingüisticamente falando) pelos vivíssimos sujeitos fictícios, numa transmutação total nos papéis narradores de criador/criatura. Acrescentando um tom dramático interessante, onde a trilha acaba interpelada (como quando Knightley interfere na música de fundo) pelas lamurias das personas focalizadas pela câmera – estas, ascendendo sobre a partitura em que estão inseridas. E não ao contrário, como seria natural.

Nestas idas e vindas de constantes flashbacks-flashforwards, explorando as marcas duradouras do pertubador tema: “o passado te condena”, Wright demonstra uma segurança invejável. Conduzindo (primorosamente) sua peça, sabendo abusar da técnica na hora exata, vide seu “grande plano-seqüência”, demonstrando as mazelas da guerra numa única/condensada cena. E/ou impondo um ritmo de revezamento entre coadjuvantes-protagonistas, dentro do núcleo familiar abordado, colocando-os sempre em posições de destaque “momentâneos” no transcorrer da rapsódia. Amparando estas mudanças – de prumo (literalmente) – pela importante fala do ator James McAvoy, maior vítima das pesadas conseqüências do contumaz engano-motriz base deste longa: “A história pode recomeçar“. Aqui, num sentido amplamente difundido, realmente. Com cada (novo) trecho sobressaindo-se aos outros enquanto agrupam-se para formar o painel final – da historieta maior.

Os vastos direcionamentos adotados, extrapolando uma linguagem de múltiplos lados, conspiram numa produção exemplar no ato de tocar sensivelmente qualquer pessoa. Fazendo um estrago (no bom sentido, claro) capaz de remoer (eventualmente) nossas feridas corrompidas pela culpa. Transformando a experiência na sala escura numa sessão onde os “desejos” reconciliatórios, de cada um de nós, acabarão evidenciando-se tanto quanto os sentimentos das figuras (meramente parafraseadas) na película. Sobretudo, quanto a sua capacidade de (re)mexer na dolorida “síndrome de culpa” alheia. Assim, fica (absolutamente) difícil recriminar e exigir qualquer “reparo” a esta obra tão inacreditavelmente bem realizada.

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