A Ordem da Rowling ou de Yates?

FILME: Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix) EUA, 2007 – Aventura/Fantasia – 138 min.

DivulgaçãoDavid Yates deveria agradecer aos céus. E a onipresença de J.K. Rowling. Semi-desconhecido no meio, o diretor, lembrado por seus telefilmes, assumiu de assalto uma das franquias mais rentáveis do cinema atual. Aparentemente absurda, a escolha é óbvia se levarmos em conta o processo de realização cinematográfica de cada “Harry Potter”. As aventuras do bruxinho estão sob controle total de sua criadora. Assim sendo, basta um “diretor-doméstico” (barato e receptivo a ”sugestões”) para agüentar a bronca e produzir (como na televisão) mais um episódio da saga Harrypotteriana.

E é este o trabalho servil de “Zé-Yates”, colocar nas telas aquilo que a mestra Rowling deseja. Se por um lado, tal ascendência de J.K. garante total fidelidade à série literária, em alguns momentos, a falta de melhores diretores (excetuando Alfonso Cuarón) pausteriza a produção. Impedindo que cada capítulo adquira identidade própria. Bom para o estúdio, que mantém a epopéia juvenil em um (bom) patamar (controlado) de qualidade – e péssimo para o público, privado de qualquer experiência nova e/ou autoral.

E este é o grande pecado de “A Ordem da Fênix”. O quinto filme sofre com a falta de “visão” (pessoal) do diretor/cineasta-doméstico. Antes, o patinho feio da literatura Potteriana – não em termos de qualidade, mas por ser o mais literário da cinematográfica obra escrita – agora incapaz de demonstrar em película seu estilo peculiar e único, presentes apenas no livro. E sobre isso, Rowling não tem culpa. Ela controla o que pode (ou não) ser mostrado. Contudo, o “como” as coisas são “retratadas”, dependem integralmente da tal “visão” que (justamente) falta a Yates.

O “Zé-Ninguém” até realiza um trabalho com algumas competências, principalmente acrescentando um tom mais sóbrio e realista à consagrada fantasia. Arriscando e abusando do contraste entre cores frias (indicando desconforto) e quentes (indicando conforto). Seu maior obstáculo é ter que encarar a adaptação mais difícil dentre os 7 tomos que percorrem a vida de Harry. Em “A Ordem”, boa parte da história se passa na cabeça de Potter, seus dramas, dilemas, acessos de raiva – típicas e marcantes da passagem do garoto pelo auge da adolescência. O personagem é uma bomba-ambulante de hormônios (tanto no livro quanto no filme), a diferença é que tudo se torna passageiro nas telas, sem o destaque dado pelo texto, sempre mais atento ao calvário (interior) vivido pelo protagonista.

Do jeito que está, aquém das acusações (típicas) de condensar elementos e apresentar um arranjo superficial do que é descrito nas páginas de Rowling, o novo filme sofre com o enfoque “desfocado” desprendido ao psicológico de Harry. Decaindo para a velha e simples “aventura-juvenil” já vista (e revista) nos longas anteriores. Não que seja um erro dar total atenção para as cenas de ação, humor e romance – como fora realizado. Só que, sem se arriscar em mergulhar nos pensamentos profundos de Potter, a trama enfraquece (até mesmo) a função de todos os demais personagens. Sem os conflitos internos do jovem bruxo, se perdem também seus conflitos externos – esvaziando o drama inerente que surge em seu (belicoso) contato diário com amigos (e inimigos).

A destacar, positivamente, a atuação inspirada de Imelda Staunton como a megera Dolores Umbridge e o próprio crescimento do trio principal, Harry, Rony e Hermione (interpretados por Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson, respectivamente). Os ex-atores mirins estão cada vez melhores. Consistentes. Principalmente Radcliffe. Aparentemente, sua estada nos teatros londrinos lhe está sendo muito útil e favorável para amadurecer (também) como ator. Pena que seu talento seja podado pelas mãos pouco habilidosas dos “elfos” que costumam freqüentar a cadeira de direção. Harry Potter clama por cineastas melhores. A série, idem. Resta a esperança de que Rowling reveja seus conceitos e conceda total alforria para os “diretores-domésticos”.

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1 comentário

Arquivado em Críticas

Uma resposta para “A Ordem da Rowling ou de Yates?

  1. Espero que alguém seja bondoso com o Zé, e liberte o com uma meia.
    Adorei Pri.
    Informativíssimo, sem ser chato.

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